Existem pessoas que constantemente enaltecem o passado. Para elas, as coisas não seriam mais como nos velhos (e bons) tempos.
Na verdade, é preciso cuidado com isso. É claro que o passado tinha coisas boas, que talvez não tenhamos mais. Mas tinha também coisas ruins, que felizmente não existem mais. E ainda: muita coisa não era tão diferente quanto parece.
Embora não tenha qualquer conhecimento formal no âmbito da psicologia, tenho uma teoria a respeito: as pessoas memorizam melhor as coisas boas. Se impressionam mais com elas, principalmente quando não as têm mais. É como a história de que a grama mais verde é sempre a do vizinho, ou de que boa mesmo é a vida dos outros.
Lembro bem de quando era criança e dizia para o meu pai que a vida dele era "moleza". Ficava só sentado em uma mesa grande, brincando com a máquina de escrever e falando com os amigos ao telefone, enquanto eu tinha que dar um duro danado no colégio, fazendo tarefas dificílimas. Hoje brinco com minha filha em torno disso, dizendo o que eu pensava quando criança e o que penso agora. Ela, é claro, concorda com meus pensamentos de criança: hoje fico só no escritório brincando no computador e falando com amigos ao telefone, conversando com clientes, ou então dando aulas sobre assunto que (ela acha) eu já sei. Dura é a vida dela, que tem de ir ao colégio e estudar matemática, ciências...
Bom, eu acho que acontece isso em relação à vida de uma mesma pessoa também, entre o ontem e o hoje. Quando alguém lembra do passado, parece que a memória amplifica a parte boa. E quando olha o presente, só vê o lado ruim. As coisas boas, acostumados como estamos a elas, não são percebidas. Só o são quando não as temos mais, o que ocorre justamente com as virtudes do passado. Tal como o lance, acima já mencionado, da grama do vizinho (e outro dia, sem brincadeira, um vizinho meu levou sua secretária para ver de perto a grama da minha casa e perguntar a ela porque a minha era verde e a dele não... E eu achava o contrário...).
Hoje talvez haja mais violência (pelo menos no Brasil), drogas... Mas o respeito às liberdades, aos direitos humanos, às minorias, está induvidosamente maior (embora ainda precise melhorar muito). Existem meios eletrônicos, internet, meios de transporte mais rápidos e ágeis... A poluição é grande, mas aumenta a cada dia a consciência em torno do assunto (antes inexistente).
Tudo isso me veio à cabeça, na verdade, por causa das súmulas do STF e do STJ, que estou comentando. As primeiras foram editadas no início dos anos 60, e dizem respeito a conflitos havidos na década de 50. As últimas são de meses atrás. E, para comentar cada uma, examino todos os precedentes que lhes originaram. É uma viagem muito curiosa.
Primeiro, nota-se, claramente, a falta de precisão e de técnica, relativamente a diversos conceitos do Direito Tributário. Alguns não estavam ainda bem esclarecidos no plano doutrinário, mas outros já eram conhecidos e sabidos, e mesmo assim eram baralhados. A eventual "confusão" que a jurisprudência faz, nesse ponto, não é nenhuma novidade, nem um "mal" dos tempos atuais.
Segundo, nota-se que a qualidade (do ponto de vista técnico) das decisões aumentou muito. Não é uma linha ascendente muito regular, até porque depende da composição do tribunal e do ministro relator, em cada caso, o que é sujeito a eventuais altos e baixos, mas, no geral, a qualidade é crescente.
E, o mais curioso, e que talvez mostre que a história é mesmo meio circular, e que "o futuro não é mais como era antigamente": os acórdãos eram muito, mas muito sintéticos. Os votos tinham uma, no máximo duas páginas. E as páginas adicionais (hoje há votos com 10, 15, 20...) não faziam a menor falta.
É claro. Na época, tudo feito de próprio punho, e depois datilografado, sem CTRL+C , CTRL+V, os ministros eram compelidos à síntese. Diziam só o essencial. Não faziam como hoje, em que votos enormes são repetidos, ampliados, mesclados com outros...
Ora, mas não é esse um mal que, modernamente, se tem atribuído à internet? Que, diante de tanta informação, se procura cada vez mais a síntese, o resumo, a informação rápida, ou, como no caso do twitter, algo reduzido a 140 caracteres?
Se os ministros, hoje, passassem a adotar fundamentações sintéticas, estariam indo para o futuro e entrando na era do twitter, ou ao passado, voltando aos votos curtinhos feitos à máquina?
O presente post não tem o menor propósito conclusivo. A idéia é mesmo só provocar a reflexão. Pensando no tema (prolixo x sintético), eu até elaborei - já que estou me preparando para a defesa da minha tese, que provavelmente será dia 7 de agosto de 2009, sexta-feira (quando tiver a data confirmada informo aqui no blog), um arquivo chamado "tese em 42 tuítes", no qual procuro escrever toda a tese em 42 parágrafos de 140 letras cada um. Depois da defesa, posto aqui. Ficou até legal, e talvez seja mais convincente que a própria tese.