domingo, 12 de fevereiro de 2023

Lançamento do "Direito e Inteligência Artificial"

Sexta-feira passada, 10 de fevereiro de 2023, foi meu aniversário. Fiz 45 anos. Aproveitei para realizar o lançamento do meu mais novo livro - não gosto de falar último, pois já estou escrevendo outro! Direito e Inteligência Artificial, o que os algoritmos têm a ensinar sobre interpretação, valores e justiça. (clique aqui para comprar na Amazon).

Seguem aqui algumas fotos tiradas na ocasião.

Paulo R. Machado, Hugo Segundo, Lara R. Machado e Hugo R. Machado
 

Aproveito para transcrever as breves palavras que proferi, para fazer alguns agradecimentos e falar um pouco sobre a obra. Como não me aguentei e terminei chorando no meio da fala, alguns amigos, embora tenham dito que gostaram muito, confessaram que não conseguiram ouvir direito algumas partes. Daí a transcrição dele, abaixo, para a hipótese de o quererem conferir.




O texto do discurso foi este:

"Boa noite! Gostaria de dizer aqui algumas palavras em torno deste livro, e da noite de hoje. Primeiro, para agradecer. Ao Dr. Schubert Machado, pelas gentilíssimas palavras. Meu irmão querido, com o qual aprendo muito. Desde quando fui seu estagiário, tenho nele um exemplo sobretudo de retidão, de ética e correção com clientes, juízes, partes adversas e seus representantes, em uma advocacia séria e consistente. Por esse e tantos outros exemplos, e pelas belas palavras que disse a meu respeito em sua apresentação, digo muito obrigado. Eu também amo você, meu irmão.

Gostaria de agradecer, também, a cada um de vocês, cada um que dedicou parte de seu tempo para estar aqui. O tempo, que é o que de mais precioso temos nas nossas vidas, de resto formada por ele, por esses pedacinhos consumíveis, irreversíveis e perecíveis de que ela é finitamente feita, e com os quais me presenteiam hoje, dia do meu aniversário.

Muita gente, no dia de seu aniversário, se dá como presente não ir trabalhar, para fazer o que gosta. Não julgo quem faz isso, cada um tem com o trabalho a relação que deseja, ou que consegue ter, dentro do que a vida lhe apresenta. Eu, por sorte, gosto muito do meu, e escolhi passar o dia de hoje aqui, tendo ao meu redor processos, livros e, principalmente, os amigos que fiz ao longo da vida e no meu trabalho. Sou grato a todas e todos os que fazem este escritório por isso.

Esta manhã eu andava pensando: o que torna nossa vida memorável não são as coisas que possuímos, ou os lugares que visitamos. Podem trazer conforto, dar um tempero especial, ou ajudar em algumas coisas. Mas o essencial são as pessoas que estão conosco na caminhada, sem as quais o resto é nada.

Façam o teste: olhem uma fotografia tirada 10, 15, ou 20 anos atrás. Ninguém terá saudade daquele relógio que depois foi roubado, do vestido que rasgou, dos óculos que se perderam, ou do par de tênis esquecido em uma viagem. Nem mesmo daquele lugar onde a foto foi tirada. A saudade será das pessoas aparecem nelas, que não são mais como eram, ou, o que aperta mais o peito, das que não estão mais conosco agora. Mesmo restaurantes, viagens, ou antigas residências, quando gostamos de lembrar, geralmente nos agradam porque remetem a quem estava conosco ali. Por isso, por estarem vocês presentes, cada um à sua maneira, na minha vida, e estarem dividindo comigo esta noite, honrando-me com a sua presença, eu reitero: muito obrigado.

Queria referir também, de modo mais particularizado, pessoas que talvez sejam mais diretamente responsáveis por este livro que hoje tenho a alegria de lançar. A primeira é meu irmão Sócrates, que nos deixou ainda muito novo, mas que, no pouco tempo que teve por aqui, desenvolveu em mim a curiosidade. Curiosidade para saber sobre lógica, sobre matemática, sobre estrelas, dinossauros e micróbios, sobre robôs ou sobre múmias, sobre o passado e sobre o futuro. Estar com ele era aprender a me deslumbrar com o universo e ter uma curiosidade intrínseca para saber mais a seu respeito. Não porque iam nos pagar, não porque iríamos conseguir um emprego melhor, ou impressionar alguém. As pessoas poderiam nem ficar sabendo do que investigávamos e descobríamos. Danem-se. Era porque era MASSA. Foi ele quem me deu meu primeiro computador, este aqui, em 1986, e os primeiros livros sobre IA que li (estes aqui, de 1988 – eu tinha dez anos!).

 


     Vejam, em 1988, quando o tema não era modinha. Talvez eu só tenha feito Direito, e não ciência da computação, porque o Sócrates infelizmente ficou em uma dessas curvas que o destino coloca na vida da gente, bem antes do meu vestibular.

A segunda pessoa é o meu pai, Prof. Hugo de Brito Machado, que por razões de saúde não se pode fazer presente. Ele soube incentivar essa curiosidade para que eu a redirecionasse ao Direito, e me estimulou, desde o começo, a publicar os modestos resultados de meus achados. Ele é, sempre foi, um entusiasta da pesquisa, e da publicação de seus resultados. Muitos colegas de nosso Estado, hoje professores consagrados, tiveram suas primeiras publicações estimuladas ou mesmo viabilizadas por ele, responsável pela criação de uma “escola”, no mais estrito sentido desta palavra, na Universidade Federal do Ceará e aqui, no Instituto Cearense de Estudos Tributários.

Quanto ao tema deste meu livro, lembro que meu pai foi pioneiro no uso da tecnologia como forma de auxiliar ou assessorar a decisão jurídica, fazendo seus colegas usarem o PC, o Word e o DOS, fato para o qual o meu irmão Sócrates teve um papel primordial. Recordo das confusões em casa sempre que faltava energia (o que não era raro nos anos 80), não havia nobreak, nem autosalvamento. Salvavam-se os textos em disquetes, mas as vezes meu pai trabalhava por horas e, concentrado na ideia que transferia para o texto, esquecia de salvar... Quando faltava luz, ou ele sem querer batia o pé no botão do estabilizador de corrente, que ficava no chão, embaixo da mesa de trabalho, e perdia tudo, zangava-se e queria de volta sua máquina de escrever; o Sócrates, com muita paciência e bom humor, contornava a situação e o amansava. Logo meu pai estava de novo diante do monitor.

Depois meu pai reproduziria a empolgação daquele seu filho, diante dos computadores, para os seus colegas juízes federais. Talvez até como forma de homenageá-lo depois de sua partida, sentindo-o presente de alguma maneira. Lembro bem, a esse respeito, com a ênfase e a energia que lhe são peculiares, de quando ele, o Prof. Hugo, depois de providenciar a compra de computadores para todos os juízes da quinta região, aos quais ensinou também a usá-los, perguntou a um deles o que estava achando do computador:

 

– Eu? Muito bom! Faço minhas sentenças à mão, de caneta, e depois a secretária digita no computador. Uma beleza!

 

Ele então respondeu:

 

- Rapaz! Sabe o que você está fazendo? Eu vou dizer de um jeito que você vai entender: O Tribunal comprou um opala top de linha para você fazer uma viagem, mas você PREFERE IR correndo, no sol, e coloca sua secretária para segui-lo dirigindo, no carro com ar condicionado, bem devagarzinho para acompanhar o ritmo dos seus passos!

 

Acho que com isso ele convenceu o colega. Ou talvez tenha sido o tempo.

Além deles, queria referir especificamente também meus filhos, Lara, Hugo e Paulo, sempre presentes na minha vida, curiosos e interessados, cada um à sua maneira; conversamos muito, indo para a escola, ou na hora do jantar, sobre política, economia, e sobre a Vida em geral. Inclusive, Lara é de algum modo coautora do livro, pois há nele ilustrações feitas por ela. É minha colega de trabalho e interlocutora para alguns temas jurídicos. A lógica infalível que tinha aos quatro anos, e que refiro na epígrafe do “processo tributário” (cuja primeira edição é de 2004 e foi lançada aqui), está cada vez mais afiada quase vinte anos depois.

Agradeço a Andrea, meu amor, por todo o carinho e cuidado, e pelo estímulo que sempre me dá para que sonhe e persiga meus sonhos. Para “dar andamento na vida”, como ela diz; em particular, pelas sugestões relacionadas às imagens que constam do livro, e pelo apoio técnico ao fotografá-las e digitalizá-las. Andrea tem, entre tantas outras qualidades, uma enorme sensibilidade, inclusive fotográfica. Vocês podem conferir: duas de suas fotografias estão expostas logo ali, e outras vocês podem ver no perfil “sobre parar o tempo”, no Instagram. Há também alguns quadros meus, e da Dra. Maria José, minha mãe, cuja presença aqui – e na minha vida inteira, sempre – me é fundamental e que por igual agradeço imensamente.

Quanto ao livro, nele, vocês verão, não se trata de um livro de ciência da computação. Não se descem nas profundezas das linguagens de programação, e no funcionamento de algoritmos, ou de sistemas de reconhecimento facial. Lembrem que eu terminei fazendo Direito, não ciência da computação. Trata-se, na verdade, de um livro sobre o Direito, ou, no fundo, sobre o ser humano. Como Prof. Arnaldo Vasconcelos gostava de repetir, não há como se construir uma boa teoria do direito sem se ter, primeiro, uma boa teoria a respeito daquele cuja liberdade há de ser compartida por suas normas. O livro, portanto, é um pouco sobre o Direito, mas mais sobre o ser humano, ou mais propriamente sobre o que aprendemos a respeito do humano quando tentamos conceber uma máquina que o imite. O subtítulo diz tudo: “o que os algoritmos têm a ensinar sobre interpretação, valores e justiça”.

Há coisas que fazemos de modo intuitivo, tão automáticas que mal as percebemos, mas quando tentamos projetar um ente artificial que as replique, e ele falha, somos provocados a compreender como as fazemos; temos aí um laboratório para, empiricamente, entender o que falta às máquinas, e nos sobra sem que percebamos, quando interpretamos, conhecemos e julgamos.

O livro é sobre isso, sendo dividido em três partes, tratando das implicações da IA sobre o Direito no curto prazo (já se usa IA em aeroportos, tribunais, etc.), no médio prazo (no que ela em breve estará fazendo – será responsável por acidentes de carros que dirija? Poderá ser tributada? Conseguirá fazer um distinguishing ou um overruling quando tiver efetivamente de julgar, e não só de copiar e colar textos com base na similitude das palavras neles empregadas? Poderá julgar sem ter um corpo que sente e se emociona?), e no longo prazo (se surgir uma máquina consciente e inteligente, terá dignidade? Terá direitos? Poderá votar?). A ideia é provocar reflexões e inquietações, não necessariamente respondê-las. Em ciência, como em filosofia, as perguntas são mais importantes do que as respostas que se lhes dão. Isso porque, na pior das hipóteses, estimulam outras pessoas a darem respostas melhores. Se eu tiver conseguido isso, já estarei muito satisfeito. Se nem isso der certo, não tem problema. Escrever o livro já foi muito divertido, e reunir vocês aqui em torno dele, mais ainda. Já valeu a pena.

Encerro agradecendo a todos os que contribuíram e contribuem para que esta noite esteja sendo especial. Adriana, em nome de quem cumprimento todas as minhas colegas e os meus colegas de escritório, pelo apoio operacional. A Lia, em nome de quem saúdo os demais profissionais talentosíssimos que tocam hoje aqui com ela, pela música, que dá a este momento a trilha sonora que ele merece. À Fortlivros, pelo apoio na parte comercial. À Editora Foco, por materializar meu livro exatamente como o imaginei, inclusive com o papel, e encadernação e as imagens que pedi. E a todos vocês, mais uma vez, pela gentileza de estarem aqui. Muito obrigado!"

 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Definições ou critérios de "verdade"

 Em Filosofia, existe amplo e profundo debate em torno da noção de "Verdade". Inúmeras teorias, formulações, críticas etc., que podem mesmo surpreender o leigo: tanto debate em torno de algo tão evidente?

A noção mais simples é a de verdade como correspondência. A verdade, uma propriedade dos enunciados (das crenças, dos pensamentos etc.), não está nos fatos, mas no que se diz (e pensa, escreve, fala, acredita etc.) deles.

Se pronuncio a frase "- Minha caneta está sem tinta", e minha caneta está sem tinta, a frase é verdadeira. Se digo essa mesma frase, mas minha caneta está carregada de tinta, ela é falsa.

Mas se critica a ideia, dizendo-se que ela parte de uma noção de "realismo ingênuo". Pressupõe que existe uma realidade, e que temos acesso direto a ela, vendo-a tal como ela é. Isso, em filosofia, seria questionável. Daí por que muitas ideias foram tidas como verdadeiras no passado, e hoje essa noção foi modificada. Tome-se como exemplo a forma do planeta terra e sua posição no universo. Já foi verdade que a terra era o centro de tudo, e hoje não é mais. A verdade seria relativa, histórica, e provisória.

Daí surgirem teorias como a da "verdade como coerência". Um enunciado - frase, pensamento, ideia etc. - é verdadeiro quanto converge, coerentemente, com outros enunciados previamente aceitos, fazendo sentido junto com eles. Ou a "verdade como consenso": verdadeiro é o que se consensualmente aceita como tal.

O debate é longo, profundo, existe uma infinidade de literatura - livros, artigos etc. - em diversas línguas, sobre ele. O propósito deste post não é aprofundá-lo. Mas apenas fazer um teste.

 Podemos dizer que algo era coerente com o que se sabia na época, mas que depois se viu que não era verdadeiro.

Podemos dizer que algo era consensualmente aceito como verdade em uma época, mas que depois se viu que não era verdadeiro.

Mas podemos dizer que algo correspondia à realidade, mas depois se viu que não era verdadeiro?

Não. Verdadeiro é o que corresponde. O fato de não termos certeza dessa correspondência significa que não temos certeza de se algo é verdadeiro, não que a própria ideia de verdade seja variável. E você, o que acha? Deposite nos comentários!

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Flores para Algernon

 Estou concluindo a leitura de Flores para Algernon, livro de Daniel Keyes sobre Charlie, um homem adulto que possui uma deficiência cognitiva que lhe confere QI muito abaixo da média, e é submetido a uma experiência neurocientífica inovadora capaz de torná-lo muitíssimo inteligente.

O livro é instigante e despertou meu interesse por uma série de razões:

1 - Tem um estilo peculiar, pois é composto dos "relatórios de progresso" escritos pelo próprio Charlie. Como parte da experiência, ele precisa escrever relatórios sobre o progresso de sua situação, datados, nos quais narra o que ocorre com ele, o que pensa, o que lembra. Os primeiros são escritos antes da cirurgia que se fez em seu cérebro para desenvolver sua inteligência. Os que se seguem vão espelhando o progresso cognitivo, e todas as consequências daí decorrentes, seja na forma como ele via as outras pessoas e entendia o que elas faziam com ele e por ele, seja no modo como as pessoas se relacionam com ele à medida em que passa de alguém abaixo da média para alguém muito acima da média em termos cognitivos.

2 - Permite reflexões sobre a inteligência e a cognição, e do quanto elas moldam a maneira como vemos o mundo, nele identificando problemas, ameaças, etc., conduzindo a excelentes insights no que tange ao debate "racionalismo x empirismo";

3 - Suscita reflexões sobre a forma como as pessoas se relacionam e tratam umas às outras, influenciada pela inteligência que possuem e pelo poder, pela influência e pela superioridade/inferioridade que essa inteligência lhes confere, ou parece conferir.

 


 

As causas são muitas, e este post poderia ser muito alongado com muitas delas. Resumi-las-ei apenas com a remissão ao fato de que, desde que comecei, conquanto tenha muitos compromissos, atribuições e tarefas a cumprir, quase não consigo largá-lo, pois a leitura é, antes de tudo, agradável na forma e no conteúdo. Recomendo. Não vou dizer mais, para não dar spoilers. Leiam e tirem suas próprias conclusões. Querendo, depositem aqui nos comentários.

Para quem tiver interesse, o livro pode ser comprado na Amazon: https://amzn.to/3O35VSs

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Direito e Inteligência Artificial

 Já está disponível para pré-venda meu mais recente livro, Direito e Inteligência Artificial:

LIVRO DIREITO E INTELIGENCIA ARTIFICIAL: O QUE OS ALGORITMOS TEM A ENSINAR SOBRE INTERPRETAÇAO, VALORES E JUSTIÇA - 1ªED.(2022) 

 

Veja uma prévia de sua Apresentação:

 

Apresentação

            Desde o surgimento do ser humano, ou mesmo antes, entre seus antepassados mais remotos, a cooperação necessária à sobrevivência[1] fez emergirem sentimentos morais[2]; em seguida, ainda no processo de tentativa e erro inerente à seleção natural, deu espaço, nos humanos, à aptidão para constituir realidades institucionais[3] e, com elas, a linguagem[4] e normas jurídicas capazes de, bem ou mal, implementar tais sentimentos morais, ou pelo menos tentar concorrer para os mesmos objetivos.

            A necessidade de sobreviver, e de passar adiante o próprio material genético, seleciona, em diferentes seres, a depender do ambiente e de uma série de outros fatores, muitos deles aleatórios, características distintas. Cores que camuflam, para iludir predadores, ou que chamam a atenção, para atrair fêmeas. Patas mais fortes, ou asas, ou nadadeiras. Olhos capazes de ver no escuro, ou o aguçamento de outro sentido, como o olfato, ou mesmo um sonar capaz de guiar independentemente de luz. No caso dos humanos, para tais finalidades, selecionaram-se caraterísticas que propiciam uma elevada cooperação, dentre as quais estão as já apontadas habilidades de desenvolver linguagem, sentimentos morais e criarem-se realidades institucionais, assim entendidas aquelas que existem porque se pactua a sua existência (v.g., dinheiro, regras um jogo, personagens imaginários etc.). Referido contexto criou condições para o surgimento da inteligência, da racionalidade e da cultura.

            Nos dias que ora correm, se presencia uma importante revolução, em face da qual inteligência e vida talvez estejam ingressando em uma nova fase, em que não mais necessitam de matéria orgânica para se constituir e manifestar. É um processo que pode parecer lento, se se tomar como parâmetro comparativo o tempo médio de vida de um ser humano. Mas é bastante rápido, se se pensar no tempo necessário, desde o surgimento do Universo, para que aparecessem vida e principalmente inteligência, na forma biológica que hoje se conhece. Bilhões de anos se passaram, até que o universo pudesse contemplar a si por intermédio de seres vivos e inteligentes. Os computadores, por seu turno, estão por aqui há menos de um século. Não se sabe o que se pode presenciar, relativamente a eles, em um período mais longo de tempo.

            Sendo o Direito destinado à disciplina da liberdade, da conduta humana, para protegê-la, e proteger dela bens tidos como relevantes, o advento de agentes inteligentes capazes de interferir na vida, na liberdade e na propriedade de terceiros suscita a questão de saber como se dará a disciplina de sua atividade. Se e quando adquirirem consciência, colocar-se-á, por igual, indagação relacionada à possibilidade de serem explorados, maltratados ou destruídos; vale dizer, se têm dignidade. Mas, mesmo bem antes disso, já se suscitam problemas atrelados ao uso de sistemas dotados de uma inteligência mais restrita, que já auxiliam na condução de veículos, na tomada de decisões por agentes públicos e privados, além de darem suporte a uma ampla gama de atividades exercitadas por autoridades públicas. Como fazer com que tais sistemas se comportem nos termos determinados pelo ordenamento jurídico? Quais são esses termos e quem os indicará às máquinas?

            Na programação de sistemas inteligentes, e na própria compreensão deles, pode haver rica troca de conhecimentos entre especialistas em inteligência artificial, filósofos (voltados à Hermenêutica e à Epistemologia), teóricos da argumentação, cientistas da cognição, neurologistas, psicólogos e neurocientistas. Estão todos às voltas com o fenômeno da cognição e da inteligência (natural ou artificial), com suas repercussões, aplicações e desdobramentos. O mesmo pode ser dito de teóricos e filósofos do Direito, no que tange à difícil tarefa de construir máquinas capazes de interpretar, observar e aplicar normas jurídicas, algo que envolve por igual a identificação, no mundo fenomênico, da ocorrência dos fatos sobre os quais estas incidem.

            É para introduzir o leitor ao estudo de tais temas, relevantes, atuais e fundamentais, que se destina este livro. Nele não se almeja realizar o estudo da Inteligência Artificial (IA), mas sim o do seu uso por parte de quem estuda o direito, de quem o aplica, e de quem simplesmente vive em sociedade e nessa condição está sujeito à interação com sistemas de inteligência artificial e às disposições jurídicas a eles atinentes. Não se trata de um livro de ciência da computação sobre IA, mas de um livro sobre os reflexos sobre o Direito dos problemas que ela, a IA, eventualmente pode suscitar; e, principalmente, sobre como a construção de máquinas capazes de interpretar normas, compreender fatos e tomar decisões pode ajudar seres humanos a entender melhor como eles próprios desempenham essas tarefas.

            Fortaleza, agosto de 2022,

 

            Hugo de Brito Machado Segundo

E-mail: hugo.segundo@ufc.br

Instagram: @hugo2segundo

Blog: www.direitoedemocracia.blogspot.com


 



[1] AXELROD, Robert. A evolução da cooperação. Tradução de Jusella Santos. São Paulo: Leopardo, 2010, passim; SAFINA, Carl. Para lá das palavras. O que pensam e sentem os animais. Tradução de Vasco Gato. Lisboa: Relógio D´agua, 2016, p. 182.

[2] Cf., v.g., SMITH, Adam. The theory of moral sentiments. London: A Millar, 1790; WAAL, Frans de; CHURCHLAN, P.; PIEVANI, T.; PARMIGIANI, S. (Eds.). Evolved morality. The biology and philosophy of human conscience. Boston: Brill, 2014; JOYCE, Richard. The evolution of morality. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2006.

[3] Realidades institucionais são aquelas que existem porque seres racionais e pensantes pactuam reciprocamente sua existência, a partir de regras que as constituem. É o caso de realidades como as regras de um jogo, os personagens de uma ficção, ou as regras de um ordenamento jurídico. Cf. SEARLE, John. Libertad y Neurobiología. trad. de Miguel Candel, Barcelona, Paidós, 2005, p. 103. Sobre a seleção da capacidade neurológica de criá-las, veja-se: ROVERSI, Corrado. Cognitive Science and the Nature of Law. In: BROZEK, Bartosz; HAGE, Jaap; VINCENT, Nicole A (Eds.). Law and mind: A survey of Law and the Cognitive Sciences. Cambridge University Press, Cambridge, 2021, p. 100.

[4] A pressão evolutiva em primatas, para que se tornassem mais cooperativos como condição para sobrevivência, pode ter sido a responsável pelo surgimento da linguagem que amplia consideravelmente a quantidade de mecanismos institucionais e sociais destinados a fazer valer os sentimentos morais, a começar pela fofoca. Cf. JOYCE, Richard. The evolution of morality. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2006, p. 90.

 


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terça-feira, 26 de abril de 2022

Pau que bate em Chico, bate em Francisco

Mesmo o não especialista sabe que situações, fatos e textos às vezes comportam mais de uma interpretação. Não que possam significar qualquer coisa: há aspectos em que há espaço para dúvida, e outros em que não. Isso não só no Direito. “Foi ou não pênalti?”, divergem jogadores, juízes e comentaristas de futebol, em torno de um mesmo lance. “Capitu traiu Bentinho?”, oscilam os estudiosos da obra machadiana. E assim por diante.

Não é preciso entrar nos meandros da Filosofia e da Neurociência, porém, para saber que, embora haja espaço para subjetividade, alguns limites devem ser respeitados, em nome da legitimidade da própria interpretação. Um deles é a coerência. Ainda que o árbitro tenha espaço para afirmar que uma falta, cometida por jogador do time “A” contra jogador do time “B”, é grave ao ponto de justificar um cartão vermelho, não será admissível que, minutos depois, sequer considere falta ação igual cometida por jogador do time “B” contra alguém do time “A”. Do contrário, a incoerência mostrará: (i) ausência de imparcialidade; (ii) falta de respeito às regras que deveriam estar sendo aplicadas; (iii) existência de outro critério, inconfessável, a guiar suas decisões. Afinal, como resume a sabedoria popular, “pau que bate em Chico, bate em Francisco.”

Os Tribunais brasileiros, porém, não têm dado ao assunto a seriedade que merece. Especialmente no julgamento de questões tributárias. Quando empresas pretenderam isenção de PIS e COFINS para as importações oriundas do Mercosul, e o Fisco não aceitou, o Superior Tribunal de Justiça deu razão ao Fisco, afirmando que PIS e COFINS incidentes na importação não são tributos aduaneiros, mas tributos internos, sujeitos aos critérios de tributação aplicáveis aos produtos nacionais. Afirmou a Corte que só se o produto nacional fosse desonerado do PIS e da COFINS, o oriundo do Mercosul também seria. Mas depois, quando surgiu uma desoneração de PIS e COFINS cobrados internamente de certos produtos nacionais (p.ex., milho), e os contribuintes pediram que ela fosse aplicada ao produto importado do Mercosul, o STJ afirmou que isso não seria possível pois o PIS e a COFINS cobrados na importação são tributos aduaneiros, e não internos.

Há inúmeros outros exemplos. Natureza do depósito judicial, legitimidade de matriz e filiais de uma empresa para mover ações contra a Fazenda... Uma longa lista de situações nas quais um mesmo pau bateu apenas no Chico, e nunca no Francisco, poderia ser feita aqui, sendo o Francisco, nelas, a Fazenda Pública. Tais incoerências dão a jogadores, comentaristas e torcedores a sensação de que o árbitro só apita falta contra um dos times, e de que talvez não sejam as regras do jogo que está aplicando. O problema é que o respeito às suas regras constitui o jogo, que do contrário desaparece, incluindo árbitros e bandeirinhas. Esse jogo, no caso das questões tributárias julgadas pelos Tribunais, é o Estado Democrático de Direito, que define e justifica a importância inclusive dos Tribunais. Estes deveriam, assim, ser os principais interessados em fazer o pau bater no Chico, mas no Francisco também.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Por que não pagar a dívida pública imprimindo dinheiro?


 

Quando eu era criança sempre tive essa dúvida. E é muito natural que crianças a tenham. O problema ocorre quando adultos ignoram, consciente ou inconscientemente, essa verdade...