terça-feira, 30 de setembro de 2008

Machado de Assis e o homossexualismo feminino

Fala-se muito, nos últimos dias, de Machado de Assis, seguramente um dos maiores, senão o maior, escritor brasileiro. A razão é o centenário de sua morte.
O site do Ministério da Cultura, inclusive, em uma iniciativa louvável, disponibilizou toda a sua obra, nos formatos doc e pdf, em site de primorosa feitura. Para acessá-lo, clique aqui.
Mas o que me motiva a fazer este post, como o título sugere, é o homossexualismo feminino. Ou, pelo menos, a sua suposta presença na obra do mencionado autor.
Refiro-me ao conto "Benedita", no qual se lê:

"CAPÍTULO PRIMEIRO
A coisa mais árdua do mundo, depois do ofício de governar, seria dizer a idade exata de D. Benedita. Uns davam-lhe quarenta anos, outros quarenta e cinco, alguns trinta e seis. Um corretor de fundos descia aos vinte e nove; mas esta opinião, eivada de intenções ocultas, carecia daquele cunho de sinceridade que todos gostamos de achar nos conceitos humanos. Nem eu a cito, senão para dizer, desde logo, que D. Benedita foi sempre um padrão de bons costumes. A astúcia do corretor não fez mais do que indigná-la, embora, momentaneamente; digo momentaneamente. Quanto às outras conjeturas, oscilando entre os trinta e seis e os quarenta e cinco, não desdiziam das feições de D. Benedita, que eram maduramente graves e juvenilmente graciosas. Mas, se alguma coisa admira é que houvesse suposições neste negócio, quando bastava interrogá-la para saber a verdade verdadeira.

D. Benedita fez quarenta e dois anos no domingo dezenove de setembro de 1869.

São seis horas da tarde; a mesa da família está ladeada de parentes e amigos, em número de vinte ou vinte e cinco pessoas. Muitas dessas estiveram no jantar de 1868, no de 1867 e no de 1866, e ouviram sempre aludir francamente à idade da dona da casa. Além disso, vêem-se ali, à mesa, uma moça e um rapaz, seus filhos; este é, decerto, no tamanho e nas maneiras, um tanto menino; mas a moça, Eulália, contando dezoito anos, parece ter vinte e um, tal é a severidade
dos modos e das feições.

A alegria dos convivas, a excelência do jantar, certas negociações matrimoniais incumbidas ao cônego Roxo, aqui presente, e das quais se falará mais abaixo, as boas qualidades da dona da casa, tudo isso dá à festa um caráter íntimo e feliz. O cônego levanta-se para trinchar o peru. D. Benedita acatava esse uso nacional das casas modestas de confiar o peru a um dos convivas, em vez de o fazer retalhar fora da mesa por mãos servis, e o cônego era o pianista daquelas ocasiões
solenes. Ninguém conhecia melhor a anatomia do animal, nem sabia operar com mais presteza. Talvez, — e este fenômeno fica para os entendidos, — talvez a circunstância do canonicato aumentasse ao trinchante, no espírito dos convivas, uma certa soma de prestígio, que ele não teria, por exemplo, se fosse um simples estudante de matemáticas, ou um amanuense de secretaria. Mas, por outro lado, um estudante ou um amanuense, sem a lição do longo uso, poderia dispor da arte consumada do cônego? É outra questão importante.

Venhamos, porém, aos demais convivas, que estão parados, conversando; reina o burburinho próprio dos estômagos meio regalados, o riso da natureza que caminha para a repleção; é um instante de repouso.

D. Benedita fala, como as suas visitas, mas não fala para todas, senão para uma, que está sentada ao pé dela. Essa é uma senhora gorda, simpática, muito risonha, mãe de um bacharel de vinte e dois anos, o Leandrinho, que está sentado defronte delas. D. Benedita não se contenta de falar à senhora gorda, tem uma das mãos desta entre as suas; e não se contenta de lhe ter presa a mão, fita-lhe uns olhos namorados, vivamente namorados. Não os fita, note-se bem, de um modo persistente e longo, mas inquieto, miúdo, repetido, instantâneo. Em todo caso, há muita ternura naquele gesto; e, dado que não a houvesse, não se perderia nada, porque D. Benedita repete com a boca a D. Maria dos Anjos tudo o que com os olhos lhe tem dito: — que está encantada, que considera uma fortuna conhecê-la, que é muito simpática, muito digna, que traz o coração nos olhos, etc., etc., etc.

Uma de suas amigas diz-lhe, rindo, que está com ciúmes.

— Que arrebente! responde ela, rindo também.

E voltando-se para a outra:

— Não acha? ninguém deve meter-se com a nossa vida.

E aí tornavam as finezas, os encarecimentos, os risos, as ofertas, mais isto, mais aquilo, — um projeto de passeio, outro de teatro, e promessas de muitas visitas, tudo com tamanha expansão e calor, que a outra palpitava de alegria e reconhecimento.

O peru está comido. D. Maria dos Anjos faz um sinal ao filho; este levanta-se e pede que o acompanhem em um brinde:
 — Meus senhores, é preciso desmentir esta máxima dos franceses: — les absents ont tort. Bebamos a alguém que está longe, muito longe, no espaço, mas perto, muito perto, no coração de sua digna esposa: — bebamos ao ilustre Desembargador Proença.

A assembléia não correspondeu vivamente ao brinde; e para compreendê-lo basta ver o rosto triste da dona da casa. Os parentes e os mais íntimos disseram baixinho entre si que o Leandrinho fora estouvado; enfim, bebeu-se, mas sem estrépito; ao que parece, para não avivar a dor de D. Benedita. Vã precaução! D. Benedita, não podendo conter-se, deixou rebentarem-lhe as lágrimas, levantou-se da mesa, retirou-se da sala. D. Maria dos Anjos acompanhou-a. Sucedeu um silêncio mortal entre os convivas. Eulália pediu a todos que continuassem, que a mãe voltava já.

— Mamãe é muito sensível, disse ela, e a idéia de que papai está longe de nós...
O Leandrinho, consternado, pediu desculpa a Eulália. Um sujeito, ao lado dele, explicou-lhe que D. Benedita não podia ouvir falar do marido sem receber um golpe no coração — e chorar logo; ao que o Leandrinho acudiu dizendo que sabia da tristeza dela, mas estava longe de supor que o seu brinde tivesse tão mau efeito.
— Pois era a coisa mais natural, explicou o sujeito, porque ela morre pelo marido.
— O cônego, acudiu Leandrinho, disse-me que ele foi para o Pará há uns dois anos...
— Dois anos e meio; foi nomeado desembargador pelo ministério Zacarias. Ele queria a Relação de São Paulo, ou da Bahia; mas não pôde ser e aceitou a do Pará.
— Não voltou mais?
— Não voltou.
— D. Benedita naturalmente tem medo de embarcar...
— Creio que não. Já foi uma vez à Europa. Se bem me lembro, ela ficou para arranjar alguns negócios de família; mas foi ficando, ficando, e agora...
— Mas era muito melhor ter ido em vez de padecer assim... Conhece o marido?
— Conheço; um homem muito distinto, e ainda moço, forte; não terá mais de quarenta e cinco anos. Alto, barbado, bonito. Aqui há tempos disse-se que ele não teimava com a mulher, porque estava lá de amores com uma viúva.
— Ah!
— E houve até quem viesse contá-lo a ela mesma. Imagine como a pobre senhora ficou! Chorou uma noite inteira, no dia seguinte não quis almoçar, e deu todas as ordens para seguir no primeiro vapor.
— Mas não foi?
— Não foi; desfez a viagem daí a três dias.

D. Benedita voltou nesse momento, pelo braço de D. Maria dos Anjos. Trazia um sorriso envergonhado; pediu desculpa da interrupção, e sentou-se com a recente amiga ao lado, agradecendo os cuidados que lhe deu, pegando-lhe outra vez na mão.
— Vejo que me quer bem, disse ela.
— A senhora merece, disse D. Maria dos Anjos.
— Mereço? inquiriu ela entre desvanecida e modesta.

E declarou que não, que a outra é que era boa, um anjo, um verdadeiro anjo; palavra que ela sublinhou com o mesmo olhar namorado, não persistente e longo, mas inquieto e repetido. O cônego, pela sua parte, com o fim de apagar a lembrança do incidente, procurou generalizar a conversa, dando-lhe por assunto a eleição do melhor doce. Os pareceres divergiram muito. Uns acharam que era o de coco, outros o de caju, alguns o de laranja, etc. Um dos convivas, o Leandrinho, autor do brinde, dizia com os olhos, — não com a boca, — e dizia-o de um modo astucioso, que o melhor doce eram as faces de Eulália, um doce moreno, corado; dito que a mãe dele interiormente aprovava, e que a mãe dela não podia ver, tão entregue estava à contemplação da recente amiga. Um anjo, um verdadeiro anjo!"

Constaria, aí, nos itens em negrito, a indicação de algo mais que amizade entre as duas amigas?
Não tenho o propósito, evidentemente, de discutir o homossexualismo em si, seja do ponto de vista ético, biológico, jurídico ou religioso. Não é isso o que interessa. A questão, que suscito, relaciona-se à atualidade do escritor, que mencionava tema - no Século XIX - que, conquanto sempre presente nas sociedades humanas, mesmo hoje é polêmico quando abordado em telenovelas.
Josué Montello - no Diário do Entardecer - viu nessa narrativa um evidente exemplo de homossexualismo feminino. Depois transcrevo, aqui no blog, o que ele disse sobre o assunto.
Se for assim mesmo, pode-se dizer então, agora que tanto se fala dele em face do centenário de sua morte, que Machado de Assis estava à frente de seu tempo também nesse ponto. Não só no estilo, na maneira de dialogar com o leitor e de estruturar as histórias, mas também na tolerância e no reconhecimento das diferenças. Ou não?
Confesso que, quando li o conto pela primeira vez, não percebi nada disso. Relendo-o agora, depois de ter sido a tanto provocado pela observação de Montello, continuo sem ter essa certeza. Não teria a amiga apenas saído para consolar a outra, triste por haver sido deixada pelo marido, e isso haver sido inconvenientemente mencionado à mesa?

domingo, 28 de setembro de 2008

Mas que maquete cara!

Passei boa parte da manhã deste domingo ajudando minha filha, e algumas coleguinhas dela, na feitura de uma maquete solicitada pela sua professora do colégio.
O trabalho é válido, e, acredito, ajuda a desenvolver nas crianças o senso estético, a coordenação motora e visual, o sentimento de grupo e a valorização da cooperação. Isso para não referir o que aprendem em torno do tema sobre o qual a maquete deve ser feita. Uma trouxe os pincéis, outra as tintas, outra o isopor... Uma ficou encarregada de algumas colagens...
Minha ajuda resumiu-se ao auxílio com facas, tesouras e fogo (para esquentar a faca e cortar mais facilmente o isopor). Dei algumas dicas também sobre cores a serem usadas, e sobre escalas. Destaquei a importância da proporção entre os objetos, não sendo possível misturar carrinhos matchbox com cadeiras da polly. Essa, aliás, era uma obsessão minha quando criança. Achava terrível ver meus sobrinhos colocando comandos em ação em carros da barbie e fazendo-os passar por entre casinhas de playmobil... Mas, voltando à maquete, dadas as dicas e diretrizes iniciais, elas fizeram todo o resto sozinhas. E ficou até bonitinha, para um grupo de meninas de oito anos.
Foi quando eu soube de uma história que me deixou perplexo.
Comentando essas atividades matutinas com alguns conhecidos, em um outro ambiente, em outro contexto, ouvi comentários de algumas mães, de outras crianças, diversas das que trabalhavam com minha filha (e até de outra série), a respeito do preço absurdo que uma senhora teria cobrado para fazer a maquete de seus filhos.
- Como assim? - Perguntei.
- Sim!!! A mulher teve o descaramento de cobrar R$ 100,00 para fazer a maquete!!! - Foi o que responderam as mães, que contrataram a senhora, bem habilidosa, para fazer o trabalho.
- Mas o trabalho não deveria ter sido feito pelos seus filhos?
- Ah... Mas é só uma maquetezinha besta, cuja feitura não mede o conhecimento de ninguém... A senhora, por outro lado, é responsável pela confecção de mesas de aniversário, e tem muita habilidade. A maquete ficou linda! Como o trabalho era em grupo, as mães das quatro crianças dividiram os honorários pela elaboração da maquete, que saiu por R$ 25,00 para cada uma...
A pior parte, contudo, foi ver o puta exemplo que essas mulheres estão dando para as pobres crianças, que assistem a tudo e assim aprendem ser esse o "jeito certo" de resolver as coisas. Nessas horas, dá vontade de sentir todos os prazeres fonéticos possíveis, acrescendo-se aos analisados pelo Prof. Alberto Xavier, ainda, o puta que pariu.
Sempre vemos em nossos pais um modelo. Na infância, inclusive, alguns valores podem não estar ainda devidamente consolidados na personalidade da criança, que toma a conduta do pai ou da mãe como paradigma. E que grande paradigma esses estão tendo.
Quando, depois, pagarem alguém para fazer sua monografia, na faculdade, a quem a mãe poderá culpar? As más companhias? Certamente. Estas são sempre as culpadas pelos defeitos que muitos pais não têm olhos para ver nos próprios filhos, e, às vezes, em si mesmos.
Quando, formados, acharem que pagando o oficial de justiça, o delegado ou o juiz, resolverão seus problemas, ou quando quiserem pagar para vencer uma licitação, ou para serem dispensados de um tributo que efetivamente devem... Tudo isso será, para eles, a coisa mais natural do mundo!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

John Nash e a teoria dos jogos

Com o mesmo propósito revelado no post sobre a Fundamentação do Direito Natural, insiro, aqui, o arquivo em PDF com o original da tese de doutorado de John Nash:




Es Dworkin un jusnaturalista?

Como disse que experimentaria postar algo em espanhol ou inglês…
Li recentemente um livro de Dimitri Dimoulis em que ele afirma algo mais ou menos assim: as pessoas no Brasil citam muito Ronald Dworkin, mas o fazem a partir de Alexy. Não leram sua obra toda, e não sabem que ele, na verdade, é.... J U S N A T U R A L I S T A.
E isso é dito – posso estar errado, naturalmente, mas entendi assim – quase como se se estivesse falando de um defeito inconfessável, um problema terrível, que, se fosse verdadeiramente conhecido dos brasileiros (será que não é?), estes jamais citariam o tal autor, e ainda queimariam seus livros na fogueira...
Fiz, então, a seguinte reflexão:
Es común, hoy en día, el pensamiento de que ser un jusnaturalista es algo muy malo. Casi como creer en duendes. Hay menos pudor en admitir la posición de positivista, pero también se necesita coraje para hacerlo. Lo mejor es el rótulo de “post-positivista”.
Pero… Será que lo son todos que dicen serlo? Que es el post-positivismo? Pensaba saber, pero, después de leer un poco sobre él, ya no sé.
Dworkin tiene un bueno artículo sobre el tema. En sus palabras, "no one wants to be called a natural lawyer". Asimismo, el sigue en el tema y define – de modo simple y directo - el jusnaturalismo como siendo la teoría según la cual “what the law is depends in some way on what the law should be." (DWORKIN, Ronald. "´Natural law revisited", in University of florida law review, vol. XXXIV, winter 1982, n.2, p. 165).
Despues, con coraje, dice: "If the crude description of natural law I just gave is correct, that any theory which makes the content of law sometimes depend on the correct answer to some moral question is a natural law theory, then I am guilty of natural law. I am not now interested, I should add, in whether this crude characterization is historically correct, or whether it succeeds in distinguishing natural law from positivist theories of law. My present concern is rather this. Suppose this is natural law. What in the world is wrong with it?"
Es verdad. What in the world is wrong with it?
Si contesto la pregunta al respecto del post-positivismo diciendo que es una teoría según la cual el ordenamiento tiene normas con estructura de principio, que determinan la realización de fines (una forma de hacer objetivos los valores…), estaré por acaso muy distante del positivismo? No son normas positivas los principios?
Si hay una orden jurídica que parece injusta, permeada de principios -mandamientos de optimización - injustos, que apuntan como fines, por ejemplo, la inferioridad de la mujer o la superioridad de una raza, cuáles son los criterios que el post-positivismo ofrece para juzgarla? No son ellos, por supuesto, meta o supra positivos?
Si soy médico, y estoy a estudiar substancias químicas, no lo hago pensando cómo podrán curar molestias? Este fin, metafísico porque no captado por los sentidos, no orienta mis pesquisas, o mi forma de ver las drogas que son (para que sean como deberían ser)? Si constato que una droga (que es) no logra atingir en absoluto la finalidad para la cual fue hecha (curar una molestia), no dejo de llamarla remedio? Por qué rayos con el derecho sería de modo distinto?
Diría más que Dworkin. No solo no hay nada no mundo que haga eso erado. En verdad, es imposible para un hombre – o una criatura humana, para no ser machista – ver una cosa que es de forma divorciada da forma como debería ser.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Quando o cliente tem razão em um SPA?

O suor escorria-lhe pela testa. Encerrava-se mais uma sessão de exercícios no SPA, e Teresa já não agüentava mais. Agora, felizmente, depois de um banho bem relaxante, chegaria a hora do almoço.
Chegando ao refeitório, contudo, a decepção. Sopa de frango de novo. E o detalhe: a sopa de frango já havia sido apelidada pelos demais freqüentadores do SPA de "sopa de frango sem frango".
O procedimento - segundo a imaginação brincalhona dos colegas de Teresa - seria o seguinte. Todos os dias o cozinheiro colocaria o frango para cozinhar em uma grande panela com água, sal e alguns legumes. O frango inteiro. Entretanto, ao final do cozimento, o frango é retirado da sopa, preso por um pequeno cordão, tal como aqueles saquinhos de chá.
No dia seguinte, O MESMO frango seria usado para uma nova sopa. E assim sucessivamente, por todos os dias da semana, até o sábado. Neste, em vez da sopa (cada vez mais rala, como é de se supor), seria servido, no jantar, o próprio frango, já inteiramente sem gosto, devidamente desfiado.
Além disso, nos lanches, biscoitinhos de fibra, barras de cereais, gelatina diet, massagens e exercícios. No jantar, salada, que - todos reclamavam - era composta basicamente de folhas. Ora - diziam - se folhas emagrecessem, não haveria elefantes gordos... Nem vacas, que só comem capim... Frases assim inteligentes despertavam gargalhadas crepitosas entre os frequentadores, que assim encontravam maneira de dar vazão às suas ânsias reprimidas.
Ao cabo de alguns dias, como mencionado, Teresa já não agüentava mais. Precisava comer algo de mais "sustância", como diria a babá de sua filha, de quem, aliás, sentia saudades. Da filha, e da babá. E da tapioca preparada por esta nas horas vagas enquanto a criança estava na escola, devidamente recheada com muito queijo de coalho.
Até que não agüentou. Começou, junto com alguns colegas, a providenciar um contrabando de big-macs. No mercado negro, poderiam ser obtidos por até R$ 40,00. Com mais um pouco, também as batatinhas, e a coca-cola normal.
Ao cabo de mais alguns dias, como era de se esperar,o peso de Teresa, em vez de diminuir, aumentava. Proporcionalmente aos Bigmacs que obtinha por meios escusos, dentro do próprio SPA. Alguns trazidos por familiares dentro de sacolas com roupas, alternadamente com pacotinhos de ruffles ou de pringle´s.
Teresa, enfim, revoltada com tudo aquilo, resolveu reclamar com a direção daquela espelunca.
- É um absurdo! Essa sopa de frango, e esses exercícios, eu não agüento mais. Quero algo mais saboroso para comer. E mais descanso.
- Dra. Teresa - ponderou o diretor - infelizmente essa dieta é sugerida pelas nossas nutricionistas. Algo mais saboroso talvez não ajude a senhora a atingir os objetivos que desejava quando hospedou-se aqui...
- Mas eu - e aí ela encheu a boca - estou  P A G A N D O  essa porra (palavra pronunciada pelo mero prazer fonético, sem qualquer finalidade ofensiva)! E não é pouco!!! Quero uma pizza hut agora!! Quero que esse instrutor idiota deixe de me obrigar a fazer tantos abdominais. É um acinte! Quero também doce de leite como sobremesa. Ou de goiaba com queijo de coalho. E aquela secretariazinha escrota que viu minha tia chegando ontem, e tomou o pacote de ruffles que ela trazia dentro da sacola, quero que seja expulsa do SPA imediatamente. É uma humilhação, para mim, ter que encará-la todos os dias, aquela atrevidinha! Recalcada! Só porque é magra fica se achando, mas é uma lisa! E o Sr. diretor não se esqueça do mandamento de toda empresa que se preze: "o cliente tem sempre razão"!

Diante de tais agressivas e ameaçadoras reclamações, o diretor desse SPA tem duas opções.

1) Uma é dar à Teresa, e aos demais freqüentadores do lugar, tudo o que querem. Afinal, estão pagando. E caro. São clientes, e o cliente tem sempre razão. Logo, poderão passar o dia inteiro vendo televisão e comendo fast food. À noite, para variar, pode haver rodízio de massas, de churrasco ou de sushi. Ou ainda de pizza. Talvez, melhor, de tudo isso junto.
Ficarão todos satisfeitíssimos em um primeiro momento. O dono do SPA, com o caixa abarrotado em virtude de filas de gordinhos a procura de vagas, querendo passar semanas em um lugar tão legal. Até clientes de outros SPAs pedirão transferência para aquele, tão descolado e antenado. Os freqüentadores, por sua vez, mais satisfeitos ainda. Afinal, poderão dizer para familiares, amigos, e para suas próprias consciências, que estão em um SPA, pois, lá no fundo, admitem que precisam entrar em forma. Até que... Até que... Até que, depois de algum tempo, os clientes começam a sair do SPA e verificar, quando voltam para casa, que não emagreceram, e, em alguns casos, estão até muito mais gordos. O que pagaram no SPA foi dinheiro jogado fora; poderiam ter comido a mesma coisa em qualquer restaurante, por preços mais baixos, sem ter de se afastar de casa, da família, da rotina. Algum tempo depois, aqueles que querem mesmo emagrecer não se matriculam mais ali. Passado mais algum tempo, nem os que querem só dizer que estão no SPA se matriculam, pois não adianta dizer que estão em um SPA, para familiares e amigos, se o SPA é "aquele", que tem aquela fama... E o que era bom para todos, num curtíssimo prazo, passa a ser ruim, muito ruim, também para todos, num prazo um pouco mais (mas nem tanto) longo.

2) Outra opção do diretor do SPA é dizer à Dra. Teresa que, infelizmente, a política do SPA é aquela. Que, se ela não estiver satisfeita, pode sair na hora que desejar. Aberto a eventuais sugestões no cardápio, e nos exercícios, naturalmente, mas não para torná-los mais calóricos, no primeiro caso, ou mais leves, no segundo. Atento a reclamações contra instrutores de ginástica que não tenham a formação necessária, que faltem ou que não saibam orientar na feitura dos exercícios, mas não contra os instrutores que apenas exigem dos alunos que façam os exercícios corretamente, com freqüência e dedicação. E mais: fazer tudo isso e ainda tentar impedir o contrabando de Bigmacs. Com o tempo, aquele que estiver acima do peso, e pretender, de fato, entrar em forma, saberá qual instituição procurar.
Nem questiono, aqui, se o tomador dos serviços de um SPA tem a seu favor a possibilidade de invocar os direitos do consumidor. Parece claro que tem. A questão é saber, no caso, no que consiste "ser tratado como cliente que sempre tem razão". A indagação é: seus direitos de consumidor estarão sendo reconhecidos no primeiro caso, ou no segundo?

Ah... E para quem estiver se perguntando o que isso tem a ver com um blog sobre Direito e Democracia, esclareço: nada. Afinal, não existe qualquer relação entre esse SPA e uma Instituição de Ensino Superior particular, as condutas de alguns de seus alunos e as maneiras como podem eventualmente lidar com elas... Qualquer semelhança, no caso, é, evidentemente, mera coincidência. Quem quiser, por sua conta, que faça as analogias.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Existe verdade objetiva?

A realidade é simples. São as pessoas que complicam as coisas.
No último sábado, tive uma prova disso.
Tenho lido, para a tese que estou a elaborar, algo sobre filosofia e epistemologia. Apesar de parecer uma "viagem", espero que a tese fique clara, e com os pés no chão (embora com os olhos no horizonte).
Sábado, depois do almoço, na casa dos meus pais, distraía-me com a leitura de Robert Nozick (NOZICK, Robert. Invariances – the structure of the objective world. Massachusetts/London: Harvard University Press, 2001), um grande crítico de Rawls, quando meus filhos vieram me pedir ajuda para colocar para voar umas pipas que o meu pai havia feito para eles.
Interrompi a leitura do Nozick, precisamente no capítulo em que ele discute a existência, ou não, de verdades absolutas e de realidades objetivas, e fui ajudá-los com as pipas.
Eram três pipas. Para o Hugo, e para o Paulo, meu pai fez pipas pequenas e amarelas, com o nome de cada um colado. Para a Larinha, uma pipa maior, cor de rosa, também com o nome dela. Fomos ao jardim, e, com o vento forte da Fortaleza dos meses do "B-R-O" (setembro, outubro...), as pipas alçaram vôo. Foi uma felicidade. Muitas aventuras, lanceios, pousos forçados no telhado da casa... Até que, terminada a brincadeira, fomos guardar as pipas.
Foi quando a Larinha veio-me com o seguinte questionamento:
- Pai, lá fora, no sol, minha pipa era cor de rosa, mas bem clarinha. Aqui dentro de casa, ela fica mais escura. Quase roxa. Qual é a cor VERDADEIRA da minha pipa? A que ela tem lá fora, ou a cor aqui dentro?

Esse fato revela que mesmo a realidade sensível, supostamente objetiva porque mensurável, é relativa. Ou melhor, não a realidade, propriamente, mas a imagem que fazemos dela, que é necessariamente intermediada por nossos imperfeitos sentidos.
Insisto que falar de relativismo, aqui, não é o mesmo que propor a anarquia, e a inexistência de padrões. Eles existem. Mas apenas não são universais, relacionando-se com o momento histórico e os demais paradigmas em face dos quais são traçados.
Ou seria possível dizer, no caso, a cor VERDADEIRA (ela deu bastante ênfase a essa palavra) da pipa, sem recorrer a algum ambiente - e ao sujeito nele inserido - em relação ao qual (logo, relativo ao qual) essa cor seria determinada?