A mente infantil me fascina. Para entendê-la melhor, às vezes procuro lembrar de quando eu era criança. Lembro que eu tinha dúvidas que iam desde ao que ocorria com a comida, quando a ingeríamos, até a existência de Deus.
A propósito de Deus, o maior sufoco que passei foi quando tive que fazer primeira comunhão, aos nove anos, já que estudava em um colégio católico.
Uma fila imensa. Todas as crianças da quarta série aguardavam para "se confessar". A professora havia dito que quem mentisse para o padre teria problemas com a hóstia, que não se dissolveria e grudaria na boca para sempre. Talvez o fato de alguns de meus professores de religião tratarem as crianças como idiotas tenha me afastado ainda mais dela.
Bom, mas a minha aflição era: como dizer ao padre que tenho dúvidas sobre a existência de Deus? Serei considerado um herege. Dirão que é um absurdo. Talvez eu seja até expulso do colégio... Essa ansiedade ia fazendo com que eu permitisse a todos os meus coleguinhas que passassem na minha frente na fila... Até que o último se confessou, e saiu. O padre estava em uma cadeira em um canto recuado de um dos corredores do colégio, e não via as crianças que faziam fila para conversar com ele, assim como as crianças da fila não viam o que se passava no local da "confissão".
Quando o último aluno - antes de mim - se confessou e saiu, vacilei por alguns minutos. Entro ou não? O que digo? Pensava que o fato de eu não acreditar me autorizaria a mentir para ele - inventando que acreditava e contando alguns pecados. Afinal, tinha-se aí um paradoxo: se eu não acreditava, para mim nada daquilo fazia sentido, e não acreditar não poderia ser errado. Mas o problema é que eu apenas tinha dúvidas. Como, sinceramente, acho que, no fundo, todos têm. Eu apenas tinha a coragem de admitir.
Bom, mas o que importa é que esses momentos de vacilação certamente fizeram o padre presumir que a fila havia acabado. Finalmente tinha terminado o suplício de ouvir mais de 200 meninos e meninas contarem os seus pecados. Ele já arrumava suas coisas e se levantava da cadeira quando entrei. Olhou para mim incrédulo, como quem pensa "não acredito, ainda tem esse!", e disse: - Já sei, já sei, mentiu para o pai, gritou com a mãe, bateu na irmãzinha, reze cinco pais nossos e cinco ave marias e vá-se embora!
Eu não me lembrava de ter mentido para meu pai, e nem de ter gritado com a minha mãe. Irmãzinha eu nem tinha. Certamente tinha os meus "pecados", que talvez fossem até mais graves que esses, mas foi um alívio. Fui até a capela, fingi (?) que rezava, e voltei para a sala de aula com uma ambígua sensação de alívio.
Narro esse episódio apenas para registrar que, na minha lembrança, usando-me como experimento, as crianças pensam. Podem não ter as respostas certas para as perguntas, mas têm as perguntas, e em filosofia, como em ciência, as perguntas são muito, mais muito mais importantes que as respostas que se lhes dão.
Quando nasceu minha filha, que hoje tem 9 anos, usei-a como objeto de estudo para perceber como se forma a cognição, o pensamento, o raciocínio... Como surgem as palavras, como se aprende a conversar, a usar a linguagem... E, o que mais me surpreendeu: como surgem os questionamentos, e como eles são profundos.
Não por outro motivo, a dedicatória do meu "
Processo Tributário", publicado em 2004, é a seguinte:
À Lara, que, não obstante tenha apenas quatro anos, muito já me ensinou, com seus simples mas profundos questionamentos, e com sua lógica infalível.
À Lara, que, com doçura e inteligência, retira o cunho dogmático de qualquer afirmação que se lhe faça. Embora já caminhe para os seus oito anos, não perdeu, e espero que nunca perca, o hábito de a tudo questionar, com desconcertante singeleza: - Por quê?
Na Turquia, com os olhos brilhando diante da diversidade cultural, a Larinha questionou: - Papai, como saber qual “certo” é o certo?
Pergunta tão singela quanto profunda, que me conduziu a outra viagem... Assim teve início este livro, que a ela dedico com carinho.
Não quero dizer, insisto, que eu fosse, quando criança, e minha filha seja, hoje, mais inteligentes que outras crianças. De forma alguma. Acredito que todas as crianças têm a curiosidade necessária para fazerem boas e profundas perguntas filosóficas, que os adultos, embebidos no senso comum e nas necessidades práticas do cotidiano, deixam de formular. Quando uma criança encontra um adulto que a respeita como ser pensante, o resultado pode ser muito proveitoso.
Outro dia, por exemplo, depois de refletir bastante, um dos meus filhos gêmeos, de 4 anos, perguntou: - Pai, por que existe o mal?
Não há nada mais filosófico do que isso, e perguntas desse tipo, não é difícil constatar, são feitas todos os dias pelas crianças. O difícil é elas se depararem com um adulto que compreenda a profundidade de suas perguntas e tenha paciência de, com elas, pelo menos iniciar a busca por respostas.

Eu já tinha essa concepção faz algum tempo, como as dedicatórias dos meus livros podem indicar. E, para minha alegria, encontrei em uma das minhas últimas visitas à livraria um excelente livro que trata justamente disso. É o "
A Filosofia e a Criança", de Gareth B. Matthews (Martins Fontes, 2001). O autor explora com bastante cuidado e seriedade a tendência filosófica que as crianças têm em certa fase da vida. Não deve ser por outra razão, aliás, que se diz dos filósofos que devem ter a curiosidade própria das crianças... Recomendo a leitura.

Bom, e quanto à Lara impressionada com a diversidade cultural, na Turquia, a foto ao lado mostra o momento em que ela teve de cobrir-se para entrar em uma mesquita. Confesso que a curiosidade dela, e as perguntas que me fez, serviram-me de estímulo para ver com outros olhos aquela realidade e aquele país cuja visita também recomendo enfaticamente.