sexta-feira, 28 de março de 2008

O Ponto de Mutação

Uma das atividades solicitadas pelo Professor da disciplina de Metodologia do Ensino Jurídico foi a elaboração de um pequeno texto em torno do filme "O Ponto de Mutação", que referi em postagem anterior.
Vi novamente o filme, e produzi o texto abaixo. Já encomendei o livro, em torno do qual o filme foi feito, mas o prazo para a entrega do resumo esgotou-se antes da chegada do livro, pelo que tive de fazê-lo só a partir do filme mesmo.
Considerando a extensão e a profundidade do filme, e do livro no qual é baseado, é óbvio que o texto não cuida de todos os seus aspectos. Isso, aliás, seria impossível, epistemologicamente falando. Nem Capra o poderia. Mas eu nem pretendi mesmo isso. É apenas um "resumo" do filme, algo um pouquinho mais extendido que aquelas sinopses que são colocadas no verso das caixas de fitas ou DVDs de filmes. A maior diferença é que, aqui e ali, faço alguns comentários. Como ao final, quando comparo, muito rapidamente, a crítica atual da "civilização" com as idéias de Rousseau.
Aí vai:
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O Ponto de Mutação


Trata-se de filme baseado na obra The Turning Point, de Fritjof Capra, no qual um político norte-americano (Jack), tendo perdido as eleições e estando um pouco desorientado, liga para um amigo poeta (Thomas), americano, poeta, que atualmente vive na França e o convida para passar alguns dias na França. A história passa-se nos anos 80, durante a “era Reagan”.
Convite aceito, ambos vão então dar uma volta pelas redondezas, e chegam ao Mont Saint Michel, pequena cidade medieval situada em local que, quando a maré sobe, fica ilhado, circundado de água. Lá chegando, encontram Sonia, uma cientista que está a passear sozinha depois de um pequeno desentendimento com a filha adolescente, com a qual não se entende bem.
Quando os dois amigos estão conversando em torno de um grande relógio, discutindo sobre como o homem teria conseguido com ele medir o tempo, Sonia, que estava no mesmo recinto, ouve a conversa e é convidada a nela interferir, fazendo questionamentos aos dois. A partir daí, os três passam todo o dia discutindo questões existenciais, cada um por seu prisma, ponto de vista ou, numa linguagem Gadameriana, por seu horizonte histórico (de político, poeta e cientista).
A discussão entre os três se inicia com a influência da invenção do relógio (não de sol ou de areia, mas o relógio mecânico, com ponteiros, que mede horas, minutos, segundos etc.) sobre a visão de mundo do homem. Para Sonia, o relógio, que é um “espelho” ou “modelo” da natureza, confundiu o homem, que passou a ver a natureza como um grande relógio, ou seja, passou a pensar na natureza como uma reprodução ampliada de seu relógio, e não o contrário.
O curioso é como as visões dos três são incompletas e, por isso, insuficientes, sem, contudo, serem propriamente “erradas”. O político, preocupado com os aspectos pragmáticos, com a aceitação, pelo povo (do qual se depende numa democracia), de cada idéia discutida. O poeta e a cientista, críticos da política, sequer votam, e com sua omissão não ajudam a melhorá-la nem a implementar as idéias que defendem. O político, por sua vez, tem visão demasiadamente simplista das coisas. Mecanicista, nas palavras de Sonia.
Para Sonia, desde Descartes, a partir do iluminismo, com o chamado cientificismo, a sociedade tornou-se demasiadamente mecanicista. Vê o mundo como um espaço no qual coisas estão colocadas, de forma independente, coisas que podem ser montadas e desmontadas, relacionadas e separadas etc, quando na verdade o mundo é um sistema, devendo o universo em geral, e nosso planeta em particular, serem vistos como um organismo vivo– e não como uma máquina.
A questão não é, propriamente, criticar o cientificismo, Descartes e sua visão de mundo, mas apenas reconhecer que algum tempo se passou desde então, e referida visão tornou-se insuficiente, incompleta. Foi muito útil quando surgiu, para romper com o paradigma anterior, mas não pode ter a mesma utilidade para sempre. Há de ser, como toda obra humana, superada. E é disso que Sonia fala.
Examinando a realidade como um todo, como um sistema integrado, e não de forma fragmentada e departamentalizada, se pode tanto compreender melhor a causa os problemas (todos inter-relacionados), como, por conseguinte, trabalhar de forma mais eficaz a sua resolução. Sonia dá como exemplo o Brasil, que para pagar sua dívida externa desmata a Amazônia para produzir soja e carne, gerando efeito estufa, pobreza e problemas cardíacos decorrentes do consumo de carne vermelha. Todos os problemas – eis que a realidade, a economia, a biologia, a natureza etc. – devem ser visto como um sistema. Não é possível olhar isoladamente para problemas globais, tentando resolvê-los isoladamente. A visão mecanicista só vê cada problema isolado, e o resolve, “consertando” a peça quebrada. Mas como não vê o sistema, e as demais peças que estão conectadas com aquela que quebrou, e, por conseguinte, não corrige esse sistema, a peça quebrará de novo.
Sonia usa então o expressivo exemplo da medicina. Cada vez mais moderna, mas cada vez mais cara. As mais avançadas técnicas são acessíveis apenas a uma minoria, quando a saúde em geral seria melhorada com uma mudança nos hábitos alimentares. As pessoas, contudo, preferem se alimentar mal, e depois gastar com tratamentos, pois não vêem as interconexões.
Jack, então, suscita o problema visto por seu prisma político-pragmático: se ele, como Presidente, cortasse gastos militares, restringisse o consumo da carne, enfim, tomasse todas as medidas necessárias para resolver os problemas apontados por Sônia, nunca mais conseguiria se eleger.
Esse é, aliás, o problema apontado desde Platão em relação às democracias: o povo não quer aquilo que é ruim em um primeiro momento, mas pode ser melhor em um prazo mais longo. E os políticos, desejando agradar o povo, não fazem o seu melhor. Algo como o pai que, não querendo desagradar o filho, deixa de lhe ministrar remédio com gosto ruim mas eficaz no trato de doença que o aflige.[1] E é exatamente isso o que Sonia preconiza: informar e cobrar responsabilidade das pessoas (e não só dos políticos).
Sonia passa, então, a tratar de como seus conhecimentos de física a auxiliam a ter uma visão diferente do mundo. Uma visão ecológica, como ela diz, em oposição à visão cartesiana (de um universo newtoniano). Átomos têm pequenos núcleos, com os elétrons orbitando de forma muito rápida, sendo impossível precisar-lhes, ao mesmo tempo, a velocidade e a posição (princípio da incerteza). Os orbitais (zonas onde estão os elétrons) os guardam e podem ser combinados com os orbitais de outros elétrons (gerando moléculas, reações etc.). Isso significa que algo aparentemente sólido não o é tanto, e está em constante “troca” com o que lhe está ao redor. A matéria, portanto, por mais sólida que pareça ser, no nível sub-atômico não passa de um conjunto de interconexões. Os elétrons formam um “campo de força” ao redor do núcleo difícil de ser comprimido, não obstante haja, entre os elétrons e o núcleo, apenas espaço vazio.
Sonia apela ainda para aspecto atualmente bastante frisado por diversos filósofos e cientistas (v.g., Carl Sagan, na série Cosmos, e Marcelo Gleiser, em A Dança do Universo, que demonstram inclusive a pouca nitidez que hoje atinge a linha divisória entre ciência e filosofia), que é o da semelhança entre as atuais descobertas da física e a sabedoria antiga, notadamente oriental. E ainda a compreensão pela sociedade ocidental, tardiamente, do acerto de certos valores antes tidos como “não-civilizados”, como, por exemplo, a proteção que os povos pré-colombianos dedicavam à natureza. Frisa, ainda, e por isso mesmo, a necessária preocupação ética que deve estar presente nos atos do cientista.
A teoria dos sistemas, segundo Sonia, pode ser aplicada à ecologia, à biologia, mas também à economia e à política. A idéia é não observar os objetos isolados, mas os objetos inter-relacionados de forma sistêmica. Colhendo uma árvore como exemplo, não deve ela ser vista dissociada do habitat, que é, para pássaros e insetos, ou do alimento, que fornece através dos frutos, para diversos animais. Esses animais, por sua vez, não deixam de ser agentes que espalham suas sementes por extensões mais vastas de território, que adubam suas raízes com seus excrementos e com seus próprios corpos, quando mortos etc.
O interessante é observar as diferentes visões dos personagens. Enquanto Sonia expõe suas idéias a respeito da realidade, decorrentes das descobertas da Física contemporânea e de sua aplicação a domínios como a ecologia e a economia, Jack analisa as implicações políticas (questionando se apenas em uma ditadura tais idéias poderiam ser todas implementadas com rapidez, e, não obstante, frisando as vantagens da liberdade e da democracia, apesar de tudo). Thomas, por sua vez, expõe o lado humano da questão. Afirma sentir-se igualmente constrangido em ser comparado a um sistema ou a um relógio. Questiona o lugar das relações entre pessoas, dos sentimentos, medos, raivas, ansiedades etc. E questiona ainda aspecto da mais alta profundidade epistemológica: a realidade, a vida, tudo será sempre infinitamente mais complexo e maior do que a explicação (ou a representação) que conseguirmos fazer com o uso de nossas teorias. Daí, para ele, a importância da arte, e da poesia.
Suponho que as idéias do filme podem ser comparadas a outras, surgidas em outros âmbitos do conhecimento, que formulam igual crítica à concepção iluminista da realidade e do papel do homem em face dela. Gadamer na Hermenêutica Filosófica e Einsten (e os físicos que o seguiram) na Física são exemplos disso. Não que as idéias iluministas sejam de todo ruins. São, como apontou Sonia, insuficientes, ou estão defasadas. Foram úteis à sua época, mas não podem continuar servindo, inalteradas, para sempre.
É preciso lembrar, contudo, que a História não é linear, e que as classificações nela feitas são muitas vezes arbitrárias. Não existem divisões estanques na realidade, mas apenas nas classificações que dela faz o homem (nessa sua visão mecanicista...). Merece referência, portanto, que a primeira crítica ao iluminismo, feita em sentido muitíssimo semelhante à do filme, e que à época fora até ridicularizada (embora tenha contado com a adesão, em certa medida, de Kant), foi formulada por ninguém menos que Rousseau. Bom exemplo das repercussões que tais idéias de Rousseau tiveram, no campo da literatura (como hoje têm no cinema), pode ser colhido no magnífico A cidade e as serras, de Eça de Queirós.
Notas:

[1] Talvez a solução esteja, como aponta Paulo Bonavides ao cuidar dos direitos fundamentais vistos em sua quarta dimensão, em se assegurar não só a democracia, mas o direito à informação, à educação e ao pluralismo. Quando as pessoas souberem do que Sonia diz, e passarem a concordar com ela, isso pode mudar a atitude dos políticos... Mas, para isso, é preciso que estes, de logo, colaborem, a fim de transformar o círculo vicioso em um círculo virtuoso.
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Se alguém assistiu ao filme e chegou a conclusão diversa, achando que eu "viajei" nas idéias acima, por favor, não deixe de se manifestar a respeito.

8 comentários:

Antônio Nunes disse...

Gostei muito do seu texto.
Assisti ao filme, porem ainda não li o livro,e como voce disse,ficou bem mais completo do que aquelas sinopses que vêm atrás das capas.
Obrigado.

thiago disse...

muito bom seu texto, vi o filme tb . só acho q a cientista e o poeta falam muito de forma utópica, tem discurso muito bonito mas na hora q o politico chama ela pra voltar aos EUA e trabalhar naquilo q ela acredita ela não aceita prefere ficar fazendo discursos belissimos mas nao se arrisca em tentar realizar aquilo q ela pensa. No fundo ela teria q fazer concessões e adaptar aquilo q ela tem em mente pra poder realizar mas a vida é essa, a perfeição fica apenas no plano das ideias qd a gente traz pro mundo material muita coisa se perde e a gente tem q tentar minimizar essa perda mas a perfeição não existe, não é desse mundo. Um pequeno gesto na direção da bondade e da beleza já significa muito!
é a minha humilde opnião.

Anônimo disse...

Amigo do comentário anterior, procure ler o livro "O Ponto de Mutação", você vai entender melhor. O filme trata de personagens, ou seja, seres humanos com as suas limitações, já o livro não, trata de fatos científicos embasados em pesquisas minuciosas e avançadas. Utopia é acreditar que a vida é o que nos impõem econômicamente. Um mundo regido por poucos pra poucos.

Milton Vasconcellos disse...

Professor Hugo,

Assiti ao filme e li sua postagem depois. Concordo em tudo que falou, sem retoques! Acrescentaria como outro exemplo o pensamento de Kelsen sobre o direito, que de igual forma, teve extraordinária importância a sua época mas encontra-se defasado e insuficiente para uma concepção contemporânea do direito.

Adoro seus livros. Também leciono Direito Tributário e muitas das minhas aulas são feitas com base em seus textos. Adotei o seu blog como uma espécie de "jornal matinal" pois todos os dias passo por aqui para ler suas postagens.. mas essa foi a primeira vez que resolvi comentar, para que soubesse que - como o poeta no final do filme disse: "A vida é muito mais do que a minha ou as suas teorias a respeito dela", mas ainda assim gostaria que soubesse que "eu te amo", como "amo Kelsen" e todos os demais que contribuiram/contribuem para que eu possa formular teorias (ainda que estejam erradas....rsss

Abraços da Bahia.

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Obrigado, Milton!

Anônimo disse...

Eu vi esse filme, a professora de metodologia da pesquisa passou pra nossa turma.. Ah, todo mundo dormiu, ainda mais que era legendado... Ooo filme pra ser chato esse, hein? Nada a ver passar isso pro nosso curso! E agora tenho q saber o que teve naquela porcaria pra fazer a prova, haja paciência! Prefiro ficar reprovada em anatomia que ver esse filme chato de novo!

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Para quem deseja "ação", realmente é melhor assistir a "Homem Aranha", "Hulk" ou "Transformers". Talvez o propósito da professora não fosse entreter. Enfim, como diriam os espanhóis, "para os gustos están los colores".

Edvander disse...

Assisti ao filme e li o livro. Sugiram aos que só assistiram ao filme a ler o livro, pois capra explica bem detalhadamente. Em relação aos comentários anteriores digo que a vida para ser rica deve ser um processo de construção/ desconstrução, ou seja, precisamos rever nossas convicções. O filme é muito bom e a física dá sinais que irá trabalhar com o político ao dizer para filha que a estada naquele lugar está chegando ao fim. Contudo, o que mais importa é abrirmos a nossa mente para novas atitudes. A partir da compreensão da realidade pelo modelo sistêmico não podemos mais afirmar que a solução de um problema social qualquer será simples. Devemos observar a complexa causalidade e combater os problemas na origem. Desse modo, quem diz que a solução dos problemas seria apenas a educação, como um equivoco, pois, antes da educação temos os valores modernos que destroem o relacionamento humano. Esses problemas são o imediatismo, hedonismo, materialismo, relativismo, subjetivismo e o individualismo. Porém, também devemos acenar para os problemas históricos tal como uma educação para poucos e visando servir a sociedade técnocientífica. ainda temos a corrupção e vários outros problemas totalmente conexos com a educação.

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