sexta-feira, 14 de março de 2008

Richard Palmer - Hermenêutica

Estou cursando, no Doutorado em Direito Constitucional da Unifor, a disciplina "Hermenêutica", ministrada pelo professor Paulo Albuquerque.

Como acontece em outras pós-graduações, o professor atribuiu aos alunos (apenas três, o que torna a aula incrivelmente dinâmica e mais interessante) a leitura de alguns textos, a serem discutidos ao longo das aulas.

Embora todos tenham o dever - de resto óbvio - de ler todos os textos, estes são separados entre os membros da turma, para que cada um fique encarregado de não apenas ler mas também iniciar a discussão a respeito do texto que lhe tiver sido designado, fazendo como que uma "mini-apresentação" dele.

O primeiro texto coube a mim. Trata-se do livro "Hermenêutica", de Richard Palmer. Em seguida examinaremos textos de Ronald Dworkin, Peter Schneider, Friedrich Müller, Marcelo Neves, Humberto Ávila, entre outros.

Preparei um resumidíssimo material com alguns dados sobre o autor e o livro, para dar mais dinâmica e sistematicidade à discussão, e resolvi postá-lo aqui.
Não se trata, evidentemente, de material completo, que torne prescindível a leitura do texto. De maneira nenhuma! É apenas um "flash", para despertar (ou não, a depender do interesse - ou da pré-compreensão - de cada um em relação ao tema) a vontade de adquirir o livro e proceder à sua leitura.

Aí vai:

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Atividade: Análise de trecho do livro “Hermenêutica”, de Richard Palmer (tradução de Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Rio de Janeiro: Edições 70, 1989).

Um pouco sobre o autor:

- Nascido em 1933;
- Fez pós-doutorado com Gadamer, em Heidelberg (Alemanha);
- Professor emérito de Hermenêutica filosófica e religiosa do MacMurray College, em Jacksonville, Illinois;
- A partir de 1999 passou a se dedicar à tradução (para o inglês) das obras de Gadamer;
- Seu livro Hermenêutica já se tornou um clássico, tendo sido traduzido para pelo menos seis línguas.
- e-mail: rpalmer@mac.edu


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Alguns tópicos construídos a partir do texto examinado (os números referem-se às páginas do livro):


· Trata-se da parte inicial do livro em exame, na qual o autor destaca, inicialmente, a importância e a difusão cada vez maior da Hermenêutica;
· Em seguida, afirma que a interpretação literária na Inglaterra e na América trata as obras analisadas como algo que existe por si, um dado objetivo que independe de quem as observa (separação entre sujeito e objeto), numa perspectiva pretensa e supostamente científica. Um poema é dissecado como um sapo em um laboratório, o que faz com que os alunos vejam a literatura como algo irrelevante, conclusão à qual são conduzidos por seus próprios professores;
· Entretanto, é preciso diferenciar, entre os objetos, aqueles que são obra (feita pelo homem) e dos objetos naturais. A obra não deve ser dissecada, mas compreendida dialeticamente. A hermenêutica é precisamente o estudo dessa compreensão, sendo por isso fundamental em todas as humanidades – em todas as disciplinas que se ocupam da interpretação das obras do homem. Sua importância decorre do fato de que a interpretação é essencial ao pensamento humano. O próprio fato de se existir é um processo constante de interpretação;
· As raízes da palavra hermenêutica residem no verbo grego hermeneuein, usualmente traduzido por interpretar, verbo que remete para o deus Hermes, sendo significativo que esse deus “se associe a una função de transmudação – transformar tudo aquilo que ultrapassa a compreensão humana em algo que essa inteligência consiga compreender.” (p. 24)
· “Interpretação” pode referir-se a três usos distintos: i) recitação oral; ii) explicação racional (explicar); iii) tradução de outra língua.
· Interpretação como dizer relaciona-se à função anunciadora de Hermes. Não é algo mecânico, mas sim criativo. O processo é um paradoxo: para lermos (como condição para anunciar em voz alta o sentido do texto), precisamos compreender previamente o que vai ser dito e, porém, essa compreensão deverá vir da leitura. Por outro lado, o texto retira muito do poder da palavra falada, e a interpretação deve devolver-lhe esse poder, reconvertendo a escrita em discurso.
· Como explicar, a interpretação não se limita a dizer algo (embora também o faça), mas explica, racionaliza e clarifica o que foi dito. A compreensão que serve de base a essa interpretação já molda e condiciona a interpretação, pois determina como a aproximação do intérprete acontecerá. “Método e objeto não podem separar-se” (p. 33). “... por um processo dialético, há uma compreensão parcial que é usada para compreendermos cada vez mais, tal como ao manusear as peças de um puzzle adivinhamos o que dele falta. (...) É necessário um certo conhecimento prévio, sem o qual não haverá qualquer comunicação.” (p. 35)
· Como traduzir, a interpretação consiste em tornar compreensível o que é estrangeiro, estranho ou ininteligível. Tal como o deus Hermes, o tradutor é um mediador entre um mundo e outro. Não se trata de simples substituição de sinônimos, mas de compreensão de dois mundos (separados pela língua, pelo tempo, pela distância etc.) A tradução conscientiza-nos “do choque entre o nosso universo de compreensão e aquele em que a obra actua.” (p. 40)
· O autor cuida, em seguida, de SEIS definições modernas de hermenêutica, que, em sua concepção, dão ênfase quer a um, quer a outro desses três significados clássicos. São elas: i) teoria da exegese bíblica; ii) metodologia filológica geral; iii) ciência de toda a compreensão lingüística; iv) base metodológica dos Geisteswissenschaften; v) fenomenologia da existência e da compreensão existencial; vi) sistemas de interpretação usados pelo homem para alcançar o significado subjacente aos mitos e símbolos;
· O significado mais antigo de hermenêutica é o de interpretação da bíblia (sentido moderno “i”). Está ligado, historicamente, às primeiras utilizações desse termo. Não obstante, em inglês, hermenêutica podia significar também a interpretação de texto não bíblico, desde que considerado obscuro ou simbólico, carente de tipo especial de interpretação para se alcançar seu sentido escondido;
· Com o iluminismo, e o desenvolvimento da filologia, passou-se a interpretar a bíblia de forma mais refinada e racional, analisando seu texto e procurando considerar as diferenças históricas, as verdades morais subjacentes aos “mitos”. Tais métodos eram os mesmos utilizados para interpretar outros textos, com o que a hermenêutica deixou de estar necessariamente vinculada a bíblia, que passou a ser apenas um de seus objetos (sentido moderno “ii”);
· Com Schleirmacher, a hermenêutica foi repensada como ciência da compreensão. Não apenas um conjunto de regras para compreender um texto, mas verdadeira “ciência que descreve as condições da compreensão, em qualquer diálogo. O resultado não é simplesmente uma hermenêutica filológica, mas uma hermenêutica geral.” (p. 50) (sentido moderno “iii”);
· Com Dilthey, passou-se a ver a hermenêutica como disciplina central que serviria de base para todas as Geisteswissenschaften (ciências do espírito, ou disciplinas centradas na compreensão da arte, do comportamento e da escrita do homem). (sentido moderno “iv”)
· Heidegger e Gadamer, em seguida, defendem ser a hermenêutica a explicação fenomenológica da própria existência humana. Isso porque a própria realidade humana seria “lingüística”, pelo que a hermenêutica mergulharia em problemas puramente filosóficos como a compreensão, a história, a existência e a realidade (p. 52). (sentido moderno “v”)
· Finalmente, Paul Ricoeur adota uma definição de hermenêutica como teoria das regras que governam uma exegese, “quer dizer, a interpretação de um determinado texto ou conjunto de sinais susceptíveis de serem considerados como textos.” (p. 52) Deve-se buscar um sentido mais fundo, revelado para além do conteúdo manifesto, o que demonstra uma desconfiança para com a superfície, que pode ser a abertura para uma realidade subjacente (a ser recuperada), ou uma ilusão enganadora (a ser destruída). (sentido moderno “vi”)

Outras informações sobre o autor e sua obra podem ser obtidas nos seguintes sites:

- http://www.mac.edu/faculty/richardpalmer/ (com diversos textos disponíveis on-line, em inglês, detalhes biográficos, produções acadêmicas etc.)
- http://www.phillwebb.net/History/TwentiethCentury/Continental/Recent/Palmer/Palmer.htm (com textos e palestras disponíveis on-line, em inglês)

4 comentários:

Nagibe de Melo Jorge Neto disse...

Caro Hugo,

Gostei muito do Blog. Acho importante discutir assuntos paralelos ao Direito, até mesmo exoplanetas e etc, mas também filosofia e literatura. Precismos de abertura.

Bacana o seu comentário sobre o Palmer. Vou procurar o livro. Como vc sabe, sou professor de Hermenêutica Jurídica. A visão hermenêutica de mundo inaugurada pelos filósofos que o Palmer comenta é fundamental para a compreensão do nosso tempo e da Filosofia do Direito contemporânea.

Parabéns pelo Blog! Vou linka-lo no meu: Direto, Literatura e tal...[www.nagibedemelo.blogspot.com]

Um grande abraço,

Nagibe

Milton Vasconcellos disse...

Querido Hugo,

Em outros comentários já publicizei aqui minha adminiração pela sua obra que certamente deve refletir muito da pessoa que deves ser.

Assim como o comentário feito pela pessoa anterior, também sou Professor de Hermenêutica Jurídica, motivo pelo qual fiquei igualmente feliz com este seu post sobre a obra de Richard Palmer.

Pelo nível de seu blog e seu "apetite intelectual" recomendo ainda a leitura de outro autor, não tão famoso como o Palmer mas de igual importância para a Hermenêutica moderna: Jacques Derrida e suas ideias sobre a "desconstrução". Vale muito a pena!!!

No mais, reitero os "parabéns" feito pelo Nagibe e aproveito o ensejo para agregar aos cumprimentos um forte abraço aqui da boa terra (Bahia).

Milton Vasconcellos

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Obrigado!

Anônimo disse...

Quem tiver interesse em ler e fazer download do novo livro de Marcelo Neves: Entre hidra e hércules, o link pra baixar é: http://www60.zippyshare.com/v/53222927/file.html

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