quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cooperação e Teoria dos Jogos

Há muito se discute a questão dos fundamentos do Direito. Afinal, por que estabelecemos regras de conduta a serem observadas no âmbito de uma sociedade? Das várias respostas oferecidas à questão, que buscam amparo na religião, na força, na razão humana, em um dever de solidariedade etc., tem ganhado corpo, nos últimos tempos, uma que recorre à biologia e à seleção natural, aliada à teoria dos jogos. Têm mais chances de sobreviver, sendo assim naturalmente selecionados, os membros de um grupo que têm empatia uns pelos outros e cooperam entre si para o benefício de todos. Trata-se de um jogo de soma não-zero, em que é possível que todos ganhem. A cooperação não é irrestrita, pois do contrário poderia colocar em risco a sobrevivência do indivíduo, mas acontece na medida em que os outros indivíduos também cooperam. Carl Sagan tem interessante capítulo a esse respeito, no livro "Bilhões e Bilhões".
Sem entrar, aqui, nessa profunda discussão filosófica (recomendo, a esse respeito, a leitura de Richard Dawkins e de Matt Ridley), que abordo em parte do "Fundamentos do Direito", o certo é que hoje pela manhã vi uma fotografia que bem ilustra essa idéia, e me provocou a retomar as postagens no blog, paradas desde o final do período letivo de 2010.2.
De fato, uma imagem vale mais que mil palavras, e essa bem ilustra a necessidade de cooperação para o proveito de todos, cooperação esta que, quando desaparece, a ninguém beneficia. Trata-se de uma foto tirada por leitora de um cruzamento da cidade de São Paulo durante um blecaute que deixou os semáforos sem funcionar (clique aqui para ver a notícia no portal G1):



Foto: Carolina Álvares

9 comentários:

Raul Nepomuceno disse...

Caramba!!! Como é que desataram esse nó?!

Mas fico pensando; nesse caso do trânsito temos apenas regras de organização (quando parar, quando ir em frente, onde se pode virar, onde não se pode) que são mesmo muito úteis e importantes para todos os que usam vias públicas. Mas essas regras não envolvem uma questão moral, ou envolvem pouquíssimo conteúdo moral.

O que fundamenta uma regra que estabelece o dever de respeitar a integridade física de um sujeito que abusa sexualmente de crianças?

Abraço, Hugo. Bom ter você de volta!

Anônimo disse...

Professor,
Parabéns pelo livro "Uma Introdução à Ciência das Finanças". Memória viva do mestre Aliomar!
Abraços do seu leitor e seguidor,
R. Coelho Borelli.

Olavo Marques disse...

FOGO! Ficaram numa alhada bem grande!!! Eu é que não lá estaria! ;)

http://questoesdefutebol.blogspot.com/

Yasa disse...

Sou professora de Direito Civil e entre uma aula técnica e outra procuro sempre rechear minhas explanações com algo que remeta a questão da solidariedade e do respeito ao próximo como únicos mecanismos de tornar o Direito algo efetivo.

Excelente blog!!! Aguardo visitas no meu. Abraços.

cacerenga disse...

Esse nó do transito: chega o cara do Detran; apita, manda afastar; o povo obedece por medo de multa; vão embora revoltados xingando-se mutuamente porque acham que tem razão; comentam no trabalho da estupidez humana, como se não fossem humanos.

Por que as sociedades aceitam o Direito imposto e o obedecem? Esse sim me parece um nó difícil de desatar. O fundamentos, como boa obra filosófica, deixou para mim mas boas perguntas do que respostas certeiras. Não que sejam respostas mal fundamentadas ou sem sentido, mas não concordo com muitas coisas ali ditas. Talvez por adotar concepções diferentes para pensar a realidade.

Bom, só queria registrar meu muchas gracias pelas reflexões que o livro proporciona.

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Caceres,
Obrigado pelo comentário.
Bom que o livro lhe tenha despertado reflexões. Realmente, em ciência, como em filosofia, as perguntas feitas são mais importantes que as respostas que se lhes dão.
Mas, quanto ao trânsito, será que TODAS as pessoas cumprem TODAS as regras de trânsito APENAS com medo da multa?

Anônimo disse...

Creio que um guarda de transito poderia ter resolvido o problema.


Quanto à solidariedade social, assim entendida como cooperação voluntária ou não entre os membros da sociedade, registro uma frase atribuída a Mirabeu:
"A magia de uma sociedade bem organizada é que cada homem trabalha para os outros acreditando trabalhar para si mesmo."

Referido pensamento foi brilhantemente desenvolvido por Adam Smith no livro "A riqueza das nações". Fica aí a dica de leitura.
Um abraço.

Anônimo disse...

Os melhores livros introdutórios sobre cooperação e teoria dos jogos são “The Evolution of Cooperation”, de Robert Axelrod, e “Thinking Strategically”, de Avinash K. Dixit e Barry J. Nalebuff. Ambos já possuem traduções para o português (embora, até onde eu saiba, o segundo tenha se esgotado nas livrarias há um bom tempo). No primeiro livro, Robert Axelrod prova que cooperação envolve não só atos de gentileza, mas também atos de retaliação (com alguma pitada de clemência, é certo). O segundo é mais interessante e com conteúdo mais diversificado. E o trecho mais interessante é aquele em que os autores demonstram a fraqueza moral da teoria dos jogos ao trazer um curioso exemplo extraído da conduta do Indiana Jones numa cena do filme “Indiana Jones e a Última Cruzada”. Mas logo o Indiana Jones, um doutor em arqueologia, esqueceu de estudar interações estratégicas, estratégias dominantes e teoria dos jogos?! Pois é... Abraços. Leandro

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Um guarda teria resolvido, certamente, pois faria o que o semáforo não fez, por estar desligado.
O que pretendi mostrar, porém, foi o fundamento da existência do semáforo, ou do dever de parar para que o outro possa passar: cooperando TODOS ganham.

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