quarta-feira, 22 de abril de 2026

MANUAL IRÔNICO

 

Como escrever difícil sem necessidade no Direito (especialmente no Tributário)


1. Nunca diga o verbo que importa

Substitua verbos simples por estruturas nominais abstratas.

  • Não diga: pagar
  • Diga: promover a satisfação da obrigação pecuniária
  • Não diga: dever
  • Diga: ostentar um dever-ser juridicamente qualificado

Regra de ouro: quanto menos ação, mais ciência.


2. Transforme pessoas em “centros de imputação”

Ser humano é vulgar. Prefira entes sem rosto.

  • Não diga: o contribuinte
  • Diga: o sujeito passivo da relação jurídico-tributária
  • Não diga: o juiz
  • Diga: o órgão investido de competência decisória

Quanto mais distante da experiência humana, mais “técnico”.


3. Comece frases sem saber onde vai terminar

Frases curtas passam sensação de domínio do tema — o que é suspeito.

  • Use ao menos quatro orações subordinadas
  • Se possível, esqueça o verbo principal
  • Pontuação é opcional; o leitor que lute

Uma frase boa é aquela que obriga o leitor a reler não porque é profunda, mas porque é confusa.


4. Explique o óbvio como se fosse uma descoberta epistemológica

Nunca presuma que o leitor sabe o básico.

  • Antes de dizer que “o prazo acabou”, explique:
    • o conceito de tempo
    • a relevância jurídica do lapso temporal
    • a diferença entre tempo físico e tempo normativo
    • e só então, talvez, mencione o prazo

Se algo é autoevidente, desconfie.


5. Use metalinguagem sempre que possível

Falar da coisa é pouco. Fale da linguagem que fala da coisa.

  • Não diga: o fato ocorreu
  • Diga: o evento do mundo fenomênico foi recortado linguisticamente

Quanto mais o texto fala de si mesmo, menos precisa falar do mundo.


6. Prefira palavras longas quando houver curtas

A simplicidade denuncia insegurança intelectual.

  • Use consumação em vez de fim
  • Interregno em vez de período
  • Polo subjetivo em vez de parte

Se a palavra não for usada fora do Direito, melhor ainda.


7. Repita a mesma ideia com vocabulário diferente

Repetição não é vício. É reforço conceitual.

Diga três vezes:

  1. o que aconteceu
  2. o que isso significa juridicamente
  3. o que isso representa no plano da juridicidade

Se o leitor achar que já leu isso antes, o método funcionou.


8. Nunca diga “portanto” sem antes dizer “com efeito”

Conectivos simples são pobres.

  • Prefira: dessarte, por via de consequência, nesse diapasão
  • “Logo” só em textos literários, jamais científicos

9. Não conclua: recapitule abstratamente

Conclusões claras encerram o pensamento, o que é perigoso.

  • Em vez de concluir, re-descreva tudo em nível ainda mais abstrato
  • Termine com algo como:

    “Essas considerações permitem vislumbrar a complexidade do fenômeno analisado.”

Nunca diga exatamente o que ficou demonstrado.


10. Se puder tornar simples, complique

Essa é a regra-matriz do método.

Se o leitor entende de primeira:

  • faltou densidade
  • faltou ontologia
  • faltou sistema

Texto bom é aquele que o leitor respeita, mas não ousa resumir.


Epílogo (necessariamente prolixo)

O verdadeiro texto "profundo" no Direito não busca comunicar, mas instituir um rito de passagem: quem o compreende sente-se iniciado; quem não compreende, presume que a culpa é sua. Trata-se de uma linguagem que não descreve o Direito, mas performativiza autoridade por meio da dificuldade.

 

=============

Agora, falando sério: façamos o contrário de tudo isso, para dedicar energia ao que importa. E há muitos assuntos precisando dela.

Nenhum comentário: