quinta-feira, 11 de junho de 2009

Sim, ele saiu correndo!

Já tinha ouvido de um amigo que, quando trabalhamos com o público, vemos tudo que se possa imaginar e algo mais. A ficção perde feio.
Trabalhando na advocacia, e principalmente ajudando meu pai na consultoria, recebemos pessoas dos mais diversos lugares, níveis de instrução, e até nacionalidades, de sorte que eu já tinha uma amostragem disso. Clientes educados (a imensa maioria) ou deseducados, pontuais ou atrasados, respeitosos ou folgados, objetivos ou conversadores etc. Com a grande maioria, o relacionamento é o melhor possível. Afinal, entre advogado e cliente deve haver, acima de tudo, confiança, sentimento do qual uma série de outros, positivos, decorrem, e que naturalmente pressupõe outros tantos igualmente nobres.
Mas, dias atrás, um cliente (?) conseguiu me surpreender.
Na advocacia, acontecia, de vez em quando, de sermos gratuitamente empalhados por horas e horas por alguém que dizia pretender contratar nossos serviços. O sujeito trazia o auto de infração e o contador, conversava por um tempão, perguntava mil coisas, anotava tudo e depois dizia um "muito obrigado" e sumia. Para evitar essa perda de tempo gratuita, resolvemos cobrar pela consulta, por hora. Assim, se o cidadão está de fato disposto a resolver um problema, e valoriza o que podemos fazer a respeito, paga a consulta sem nem discutir. Os que antes vinham só para encher o saco passaram a achar a cobrança "um absurdo" e nem aparecem mais. E algum que queira só "pegar as dicas" para depois contratar colega que realiza o serviço por 20% do que cobraríamos pelo menos paga pelo tempo que dedicamos a ele.
Pois bem. No início deste mês, telefonou para minha secretária um sujeito que se dizia "auditor fiscal" e que queria uma consulta urgente. Foi passado o valor para ele, que reclamou, mas mesmo assim disse que queria um horário naquele dia mesmo. Havia disponibilidade, foi marcado, e ele veio.
Na verdade, o "auditor" apenas trazia um "amigo", que era quem de fato enfrentava um problema grave. Perguntaram mil coisas. Respondi a tudo, tendo os consulentes tomado nota de diversos esclarecimentos. Ficaram de resolver o que iriam fazer, e depois retornar, se fosse o caso. Até aí, tudo normal. O inusitado foi no final. Quando abri para eles a porta da sala de reuniões onde estávamos, eles simplesmente saíram correndo.
Sim! Saíram correndo, feito crianças depois que pegam o brinquedo que a outra lhes sovinava. Não foi nem andando rápido nem trotando não, foi galopando mesmo. Correram. A secretária, atônita, ainda lhes perguntou: - E a consulta?
Ouviu só um longínquo e ofegante - Depois a gente vê...
Até hoje...
Achei tão engraçado que fiquei com vergonha por eles e nem consegui ter raiva. Se o valor da consulta, que deixei de ganhar, for o preço a pagar para nunca mais ter que falar com as figuras (depois disso não acredito que tenham a cara de pau de voltar), saiu até barato para mim.
E ainda tem gente que acha que a parte difícil da advocacia é peticionar ao Judiciário, enfrentar a aplicação do art. 20, parágrafo 4.º do CPC ou, no caso do Direito Tributário especificamente, a vasta gama de privilégios da Fazenda Pública...

17 comentários:

Leandro Aragão disse...

Bem que você poderia colocar os nomes destes dois projetos de Usain Bolt no seu post, Prof. Hugo. Pelo menos deixará os demais advogados precavidos em relações aos dois sujeitos. Abraços!

Diego Estrela disse...

Verti lágrimas de tanto rir imaginando os sujeitos em desabalada carreira!... mas eu daria um braço pra ter presenciado a cena!

Caceres disse...

Rapaz, esse é o tipo de cena que deveria ser filmada pra todo mundo poder ver, hahaha. Tem uns figura nesse mundo que, pelamordideus, só nascendo outra vez. Eu fico imaginando os dois patetas tramando isso antes de entrar no escritório...

Fábio Cordeiro de Lima disse...

Hugo,
Essa história é realmente cômica, pois morri de ri ao ler o seu post. Realmente, é chato uma pessoa querer se aproveitar do conhecimento de alguém porque tenho certeza de que você precisou dedicar algum tempo para consegui-lo. Você é um profissional liberal e como qualquer um precisa ganhar para sobreviver dignamente.
O jeito agora é cobrar antes de entrar na sala e a vista (já pensou o pessoal passando um borrachudo). Quem sabe você passa a aceitar cartão de crédito.
Essa questão do art. 20, § 4º do CPC, é bastante engraçada. Acho que o bom senso orienta examinar o grau de dificuldade da demanda e a diligência do profissional. Uma questão já pacificada e de alto valor econômico, não justifica que a fixação em % sobre o valor da condenação.

Thiago disse...

Caro Hugo,

Realmente a história é, no mínimo, pitoresca...para ficarmos só no seu lado cômico...pois trágico, realmente, é o tratamento dispensado pelo Judiciário à advocacia em prol da Fazenda Pública e em detrimento daquela omo você muito bem lembrou ao citar o § 4º do art. 20 do CPC...a equidade vira sempre "modicidade" (leia-se aviltamento do trabalho do advogado)...mas o encargo legal do DL 1025/69..ahhhh este é plenamente admitido...sendo os inacreditáveis 20% de acréscimo no valor do débito do contribuinte tão somente pela sua inscrição em dívida ativa algo normal...acho que vou prefiro ficar com os clientes maratonistas...
abraço

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Leandro,
Embora dê vontade, não vou fazer isso com eles.
abraço

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Diego,
Foi realmente uma cena surreal. Dois marmanjos em seus 40-50 anos correndo feito meninos depois de tocar a campainha do vizinho...
abraço

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Caceres,
Realmente, eu não tinha pensado no "tramar antes". Torna tudo ainda mais engraçado.
Quanto à filmagem, até temos circuito interno, mas sem gravação. Mas você me deu uma boa idéia...

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Fábio,
Prefiro não recorrer a meios, digamos, mais agressivos de cobrança. Do mesmo modo que espero que os clientes confiem em mim, eu procuro confiar neles. Figuras como a do post em questão são raríssimas, e não justificam o nivelamento por baixo dos outros 99% que não se enquadram no perfil "garapeiro".
abraço,

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Thiago,
Os clientes maratonistas são pitorescos, mas minoria, felizmente. E a advocacia certamente vale à pena, apesar deles. Jamais pensei em engrossar as fileiras dos concurseiros (embora não tenha nada contra, é claro) por causa disso, e nem por causa do art. 20, § 4.º do CPC, que é realmente um acinte. Ou melhor, a interpretação que certos juízes fazem dele o é.
abraço,

Fuad Daher de Freitas Mendes disse...

Sério???

Antonio Prudente disse...

pensava q as situações mais inusitadas eram as ocorridas em sala de aula..

monica disse...

Segundo, sugiro que cloque tranca nas portas de saída. Assim, evitás outros gastos maiores e "maratonistas" rsrsrs. Creio, que é engraçado para a maioria, mas como nosso "ganha pão" vem daí mesmo, prefiro escutar como forma de precaução... em todo caso, mandei colocar travas nas minhas rsrsrsrs. Mõnica Mello

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Boa idéia a das travas, Mônica.
No caso, elas já existem, mas para proteger-nos de quem eventualmente vem de fora. Faltou apenas a idéia, da recepcionista, de "esquecer onde estava a chave" da porta de saída, deixando para lembrar só depois. É que foi algo tão surreal que ficamos todos sem ação. Mas deixa para lá...

Feitosa Gonçalves disse...

Fico me perguntando se eles haviam combinado a "traquinagem" previamente ou se foi algo espontâneo (quando um dos amigos toca a campainha e obriga o outro a correr)!

Trabalhei num escritório onde, no início, entendíamos que não cobrar consulta, principalmente de pessoas menos favorecidas, era uma forma de tentar devolver à sociedade a educação gratuita que a Universidade pública havia nos dado... Ultimamente estávamos pensando em rever essa política justamente por conta daqueles que vinham, tomavam nota e sumiam! E não me refiro a quem não poderia pagar, mas a quem tranquilamente teria condições mas ainda assim preferia dar uma de "Gérson"...

Ainda sobre os sapecões, olha que seria uma maravilha ver isso no YouTube hein?

Abraço!

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

É verdade, Feitosa, no youtube ficaria legal.
Também fazemos advocacia "pro bono", não cobrando nada de quem nada pode pagar e, em nosso juízo, está sendo injustiçado. Mas essa, seguramente, não era a situação dos que saíram correndo, tanto pelo cargo público que um alegava exercer, como pela natureza das atividades exercidas pela empresa do outro...
abraço.

Anônimo disse...

Já aconteceu coisa, de longe, parecida comigo. Para resumir posso dizer que tive o mesmo sentimento que você. Saiu muito barato não ter mais qualquer responsabilidade com o tal "cliente". O pior foi depois receber uma ligação pedindo um substabelecimento com urgência para a nova advogada. Perdi 15 minutos do meu precioso tempo, resolvi o problema e deixei-o dentro de um envelope na recepção do meu escritório...

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