quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A arte de complicar as coisas simples

Enunciado 1: O menino comeu uma bolacha.

Enunciado 2: O menino pegou uma bolacha que estava sobre a mesa, segurou-a com os dedos, levou-a até a boca e comeu-a.

Enunciado 3: Um ser humano ainda em fase de desenvolvimento visualizou produto compacto e salgado da industrialização do trigo que estava sobre um móvel destinado a que sejam servidas as refeições, comprimiu-o entre os dedos, moveu o braço (correspondente à mão cujos dedos comprimiram o produto compacto e salgado da industrialização do trigo) até a cavidade bucal e nela introduziu o produto que segurava, a fim de extrair-lhe os nutrientes e sentir-lhe o sabor.

(...)

Um pouco mais de conhecimento, imaginação, paciência e tempo permitiriam transformar o enunciado 1 em um livro. Poderíamos descrever a sequência de pulsos nervosos e cada nervo percorrido, no ato de mover cada um dos músculos necessários a que se segure uma bolacha. Poderíamos descrever todo o percurso da luz, desde sua produção no sol (quando poderíamos cuidar da fusão - no núcleo dessa estrela - entre dois átomos de hidrogênio, que gera um átomo de hélio e libera grande quantidade de luz e calor) ou em uma lâmpada (cuidando então da passagem dos elétrons gerados em uma usina hidrelétrica pelo filamento no interior do bulbo de vidro...), até chegar à retina do garoto, transformando-se em sinal elétrico e sendo então transmitida pelo nervo ótico até o cérebro... Quanto à bolacha, sua composição atômica e molecular também poderia ser exaustivamente decomposta...

A questão reside em saber se isso seria necessário. Se não estivermos estudando astronomia, não é preciso dizer como a luz se forma no interior das estrelas. Se não se estiver pesquisando biologia ou oftalmologia, tampouco será necessário cuidar de sua transformação na retina nem de seu transporte pelo nervo ótico... Se não estudamos nutrição, também não é preciso saber o que ocorre dentro da boca do garoto (e, menos ainda, depois dela). Se nosso propósito é apenas o de estudar que sumiço levou a bolacha que estava sobre a mesa, poderá ser útil, simplesmente, averiguar se alguém a guardou em um depósito na geladeira, ou a levou embora, ou a comeu. Não é preciso decompor infinitamente cada uma dessas ações.

E se trocarmos "o menino comeu a bolacha" por "o fiscal lavrou um auto de infração"?

9 comentários:

Fabrício Andrade disse...

Aí sim se justifica uma investigação mais profunda da razão que levou à autuação. Aliás, é bem importante que se apure tudo: o comportamento do autuante, do autuado, os elementos do auto de infração e tanta coisa....

Doni disse...

Concordo com tudo que disse. Porém, há escritores aos quais não se pode deixar de adimirar a sua capacidade de descrição; Marcel Proust é um deles.

Abraço,

Donizetti França

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Donizetti, com Proust é diferente, sobretudo por se tratar de literatura. Refiro-me, no post, a textos científicos. Posso dizer:
(1) no Brasil, a Constituição veda a pena de morte.
ou
(2) na República Federativa do Brasil, a Constituição Federal promulgada aos 5 de outubro de 1988 veicula proposição prescritiva cujo modal deôntico proíbe os poderes constituídos de editarem proposições prescritivas cujo descumprimento tenha por sanção a supressão da vida do indivíduo infrator...

(e olhe que não fiz esse item '2' mais longo porque não estou com muita paciência agora...)

Antonio Prudente disse...

acredito que ainda caberia a frase "Um ser humano ainda em fase de desenvolvimento" no lugar de "fiscal"..nada pessoal e sem generalizações.

Gisa Borges disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gisa Borges disse...

Concordo com o Dr. Hugo. A "fabulosa arte de ser prolixo" muitas vezes escapa ao essencial e acaba por deturpar o próprio texto.
Pesquisar, investigar e descrever determinadas atitudes ou acontecimentos de maneira precisa, não quer dizer detalhar ao exagero.
Destacar a excentricidade com que alguns escritores descrevem determinadas situações não é o mesmo que comparar obras literárias que necessariamente são o que são pela capacidade de seus autores em descrever situações ou ações.
Passando ao âmbito jurídico e principalmente à atividade jurídica cotidiana - o "atuar" - é possível verificar o impecilho de tudo isso, com decisões que geram no mínimo um cansaço, diante de tantas divagações.
Já que estou falando em divagações, paro por aqui. Direito não é 2+2... nem o nosso cotidiano o é. Mas simplificar para melhorar e tornar mais acessível é o grande desafio atual (claro, que a acessibilidade também não deve cair no exagero!). Tudo é ponderação.
Parabéns pelo texto Dr. Hugo! Adorei!

Diego Estrela disse...

É prof. de fato não foi com respostas muito longas que passei na sua cadeira!!

Doni disse...

Hugo,

Às vezes, eu penso que parte dessa prolixidade decorre de uma certa influência francesa e germânica. Não por coincidência nossa tradição filosófica-jurídica é estruturada em obras de autores que adoravam exibir suas artimanhas semânticas e sintáticas: Kant, Habermas, Hegel, Derrida, Heidegger e etc.

Essa diferença é ainda mais realçada quando nos deparamos com escritores de tradição inglesa ou com os escritores lógicos, cuja principal característica é a clareza e preocupação com a simplicidade. Basta comparar qualquer escrito de Russell ou Quine com Heidegger, Kant ou Hegel! Ah, que diferença!

Parte dessa prolixidade também parece decorrer da insegurança de alguns profissionais, que ainda acham que para ser convincente é preciso escrever muito! James Watson e Francis Crirck não precisaram de mais de uma folha para convencerem o mundo da descoberta do DNA! Já dizia Schopenhauer, a força de um argumento não está na quantidade de vezes que você é capaz de repeti-lo, mas na intensidade!

Abraço,

Donizetti França

Tales Diego de Menezes disse...

Na verdade, saber "que sumiço" levou a bolacha é uma coisa; saber a "razão" do até então desconhecido sumiço, é outra.

A meu ver, o mesmo não acontece com a frase final, qual seja: "O fiscal lavrou um auto de infração". Se fosse o mesmo da primeira frase, faríamos as seguintes indagações: a) Que fim levou o auto de infração?; e b) Qual razão da lavratura?

Aqui, a questão deve ser tratada de forma diferente. Deveríamos querer saber, antes "de que fim" levou o auto, qual a razão legal para a lavratura do mesmo. Depois, e já considerando a legalidade ou não do documento, saber qual a final destinação do mesmo.

De toda sorte, e em que pese o que falei há pouco, penso que a finalidade do post é outra. Talvez o Senhor estivesse querendo demonstrar que, muitas das vezes, as pessoas fazem questão de complicar tudo: o que fazem; o que dizem; o que entendem; etc.

É uma pena que isso aconteça, pois, ao reverso do que a essência comum das coisas lógicas tenta passar, complicar tudo só dificulta o entendimento pelo terceiro, o qual, e na grande maioria das vezes, acaba por não entender nada e, já "sem muito saco", esquece e desiste do assunto.

Todo o trabalho suado e, gratuitamente, complexo, perde o seu real sentido, que é "conseguir transferir algo a outrem".

Um abraço!

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