quarta-feira, 22 de abril de 2009

Esclarecimento necessário

O post passado recebeu alguns comentários, dos quais destaco este:
"Em Salvador, tem que ser"... Perdão, professor, mas não entendi o que o senhor quis dizer com isto. Aliás, entendi, sim; mas custei a acreditar. Não que devemos levar as coisas sempre tão a sério, mas pequenas manifestações revelam, às vezes, grandes preconceitos. Imaginava eu (um baiano morando em São Paulo há muito tempo) que fossem só os sulistas que pensassem, de modo caricata, que os baianos são lentos, lerdos, preguiçosos. Mas um cearense, reproduzindo uma idéia que me parece insensata, não faz sentido. É a mesma coisa que vivo ouvindo pelo Sul maravilha: "quanto mais pra cima, maior a merda", ou "o Rio de Janeiro é o primeiro Estado do Nordeste do Brasil e quanto mais pra cima, pior", "O Nordeste é um lixo pro Brasil", ou "só tem burro pra cima" e por aí vai. Sinceramente, todas as vezes que ouvi isto senti pena da pessoa. Isto mesmo: pena.
 Vi que o sujeito se deixou tomar pela ignorância. Nunca visitou o Nordeste, nunca conversou com alguém do Nordeste (às vezes estamos conversando comigo, um nordestino, sem saber), mas se sente no direito de fazer um juízo de valor neste sentido. Mas vamos vivendo. E não interprete mal meu e-mail, por favor. 
Mas acho que o Nordeste e os nordestinos de um modo geral só se farão respeitar quando, eles próprios, acabaram com idéias tolas e sem nexo. Não acredito que Estados que nos deram Orlando Gomes, Clovis Bevilaqua, Pontes de Miranda, Lourival Vilanova, Hugo de Brito Machado, Paulo Bonavides, Willis Santiago, sejam locais onde a preguiça, a indolência, a ignorância estejam por toda parte, não. Mas não interprete mal meu e-mail, por favor. Foi apenas uma breve consideração sobre, digamos, a irracionalidade que está na base de nossos preconceitos (alguns deles, legítimos talvez). 
Continuarei lendo seu blog. É um dos melhores blogs jurídicos da internet. Abraços fortes.

Respondi o comentário dizendo mais ou menos o que se segue, mas, relendo o post, vi que o Leandro teve razão em confundir-se. Aliás, a expressão (em Salvador, tem que ser...), ficou, nesse ponto, dúbia, o que só agora percebi. Por isso senti-me na obrigação de fazer, aqui, o esclarecimento necessário.
Quando escrevi o post, havia acabado de chegar à cidade. Eram mais de 14:00 e, depois do café da manhã que tomei em casa às 6:30, só havia me alimentado, até então, das "barrinhas" do serviço de bordo da Gol. Estava faminto. E adoro moqueca. Em Fortaleza até fazem o prato em alguns restaurantes, mas nenhuma chega aos pés das que como quando vou a Salvador. Daí a referência: em Salvador, tem que ser. Eu estava sonhando com o prato, tendo sido essa, aliás, a expressão que usei com a garçonete que me atendeu. Perguntei se tinham moqueca, e, diante da resposta afirmativa, disse que nem queria olhar o cardápio para ver outras opções: Tinha que ser moqueca.
Não que a culinária na Bahia se resuma a isso. Claro que não. Além de outros pratos típicos, um bacalhau no Convento do Carmo, ou no Amado, e um sushi no Soho são também indispensáveis.


Bacalhau do convento do carmo - depois da Moqueca, é também excelente.


Aliás, naquele mesmo dia, à noite, depois da aula, saí para jantar com o Professor Eduardo Sabbag, conversamos bastante e comemos, de novo.... Moqueca!
Em síntese, nem de longe, ao escrever o post, pensei em destacar eventual lentidão do serviço do restaurante, ou associá-lo à cidade respectiva.
Por sinal, devo, neste ponto, revelar que ainda estava copiando e colando os e-mails que troquei com o Ítalo e que integraram o post quando a moqueca chegou, borbulhando, cheirosa, o que me levou a fechar o laptop e interromper a postagem, retomando-a algum tempo depois, quando tomava um cafezinho e fumava um... imbatível charuto baiano, ali mesmo adquirido.
Eu até já tratei do tema aqui no blog, tempos atrás, no post "Tenha calma, meu rei", no qual pude falar seriamente do que acho da Bahia e da aludida lentidão do seu povo (o que fiz por conta do comentário de um amigo, que me enviou a decisão), aproveitando para cuidar de outros comentários caricatos feitos em torno das pessoas de outros Estados, inclusive do Sul. Mas, no caso do post sobre ITCD, não foi em absoluto o que pretendi fazer.

4 comentários:

Leandro Aragão disse...

Ok, professor. Acho que agora está claro. Linguagem é fogo: passa cada rasteira na gente, mesmo involuntariamente. Grato pelos esclarecimentos. E perdão pelos erros gramaticais no meu e-mail. Ele foi feito às pressas (apesar de alguns ainda falarem dos baianos justamente o contrário...). Abraços fortes"

Prof. Cláudio Colnago disse...

Professor Hugo,

Já que gosta tanto de Moqueca, coloco-me de antemão à sua disposição para degustar uma autêntica moqueca capixaba (que, segundo dizem, superam em muito as baianas...), quando estiver aqui pelo Espírito Santo. ;D

Grande abraço.

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Leandro,
Pois é. A linguagem tem dessas coisas, sobretudo a escrita.
um abraço

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Prof. Cláudio,
Em Vitória, já experimentei um "peixe na telha", e também a moqueca.
Não sei se foi equívoco, mas a capixaba não tem dendê, é verdade? Se for, a baiana ganhará dela só por isso.
De qualquer modo, estando eu no ES, será um prazer compartilharmos uma.
abraço,

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