quarta-feira, 15 de abril de 2009

A viagem do elefante



Concluí hoje cedo a leitura do "A Viagem do Elefante", mais recente livro de José Saramago.
A história, devo admitir, em um primeiro momento não parece das mais emocionantes. Ele já escreveu melhores. Todos os nomes, por exemplo, pelo menos na minha opinião o melhor dele. Mas na maneira como a história é contada o autor se superou, e o livro merece ser lido, se não por outras razões, só por essa. Não que a história seja ruim. Longe disso. Apenas, como eu disse, ele já escreveu livros em torno de narrativas mais interessantes.
Neste, conta-se a saga de um elefante que, dado de presente de casamento pelo Rei de Portugal ao Arquiduque da Áustria, tem de fazer a viagem de um país ao outro, com toda uma comitiva de soldados, carros de boi (para levar-lhe a comida e a água) etc. Isso no Século XVI.
Há diálogos entre o cornaca chamado Subhro, indiano responsável pelo tratamento do animal, e os portugueses que o acompanham, que são impagáveis. As discussões religiosas entre eles são uma obra prima de filosofia. Em certo momento, conversando durante a noite, os soldados pedem ao indiano que lhes conte um pouco de sua religião, na qual inclusive há um deus com cabeça de elefante. E ele o faz. Ao concluir a detalhada exposição...
"...histórias da carochinha, resmungou um soldado, Como a daquele que, tendo morrido, ressuscitou ao terceiro dia, respondeu o subhro, Cuidado, cornaca, estás a ir longe demais, repreendeu o comandante, Eu também não acredito no conto do menino de sabão que veio a tornar-se deus com um corpo de homem barrigudo e cabeça de elefante, mas foi-me pedido que explicasse quem era ganeixa, e eu não fiz mais do que obedecer, Sim, mas fizeste considerações pouco amáveis sobre jesus cristo e a virgem que não caíram nada bem no espírito das pessoas aqui presentes, Peço desculpa a quem se sentiu ofendido, foi sem intenção, respondeu o cornaca. Ouviu-se um murmúrio de apaziguamento, a verdade é que àqueles homens, tanto soldados como paisanos, pouco lhes importavam as disputas religiosas, o que os inquietava era que se tocasse em tais assuntos tão retorcidos debaixo da própria cúpula celeste. Costuma-se dizer que as paredes têm ouvidos, imagine-se o tamanho que terão as orelhas das estrelas."

Aliás, é na crítica à religião - ou melhor, ao uso que certos homens fazem dela - que o livro se destaca. Há um momento em que o cornaca é forçado por padres, na cidade de Pádua, a ensinar o elefante a se ajoelhar diante de uma igreja. Isso sem que ninguém saiba, naturalmente. Depois, passando pelo local, quando nele já estava reunida uma multidão, o elefante se ajoelha e todos gritam: Milagre!!! Era preciso contra-atacar o maldito Lutero, diziam.
O cornaca aproveitou-se da situação, e em seguida fez fortuna vendendo pequenos pedaços do pêlo do elefante milagreiro, com o qual se podiam fazer chás, pomadas etc., para curar as mais diversas doenças.  :-)

Até epistemologia se acha no livro. Sobre o caráter meramente descritivo da atividade dos historiadores, Saramago afirma:
"No fundo, há que reconhecer que a história não é apenas selectiva, é também discriminatória, só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta realidade."

7 comentários:

Julio Pinheiro Faro disse...

Caro Hugo,
Saramago é muito bom. "Todos os nomes", de fato, é um livro muito bom; e "A viagem do elefante" me deu mais ou menos a mesma sensação que você sentiu, mas talvez o grande lance do livro sejam os assuntos "periféricos" à história. Aproveito para indicar outros livros muito bons dele: "Objecto quase", "A caverna", "Ensaio sobre a cegueira" e "Ensaio sobre a lucidez".
Aproveito, também, para indicar um link: http://linkslegallibrary.blogspot.com, está em fase de compilação, mas já possui coisas boas.
Forte abraço
Julio

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Julio,
Obrigado.
Dos títulos que você indicou, alguns já li, outros não.
Vou conferir o link.
um abraço,

Feitosa Gonçalves disse...

Confesso que não conhecia o refeido livro, mas a descrição foi tão interessante que já está na minha lista de aquisições!

Abraço,

Pablo

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Gosto literário é algo bastante subjetivo, Feitosa. Feita a ressalva, posso dizer-lhe: o livro é ótimo.
E pudera: é a obra feita por alguém em plena maturidade, que de quebra é o único nobel de literatura no âmbito da língua portuguesa.

patricio branco disse...

a viagem do elefante é um romance cómico, divertido. Não tão bom como a morte de ricardo reis, mas agradavel de ler. Talvez haja no romance intervenção excessiva do narrador, ou seja, de saramago

Anônimo disse...

Fuck you all

Maíra da Fonseca Ramos disse...

Estou gostando do livro, mas, realmente, o autor tem livros muito melhores. Meu favorito ainda é " Memorial do Convento", que foi meu primeiro livro de Saramago. Inesquecível!

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