sábado, 11 de abril de 2009

O papel do orientador - I

O título do post é "- I" porque ainda farei outros, destacando aspectos diversos. Mas este é o que me parece mais relevante por enquanto.
Outro dia recebi por e-mail a seguinte fábula, bastante pitoresca e engraçada:

Num dia lindo e ensolarado, o coelho saiu de sua toca com o notebook e pôs-se a trabalhar, bem concentrado. Pouco depois, passou por ali a raposa e viu aquele suculento coelhinho, tão distraído, que chegou a salivar. No entanto, ela ficou intrigada com a atividade do coelho e aproximou-se, curiosa:

R - Coelhinho, o que você está fazendo aí tão concentrado?

C - Estou redigindo a minha tese de doutorado - disse o coelho sem tirar os olhos do trabalho.

R - Humm .. . e qual é o tema da sua tese?

C - Ah, é uma teoria provando que os coelhos são os verdadeiros predadores naturais de animais como as raposas.

A raposa fica indignada:

R - Ora! Isso é ridículo! Nós é que somos os predadores dos coelhos!

C - Absolutamente! Venha comigo à minha toca que eu mostro a minha prova experimental.

O coelho e a raposa entram na toca. Poucos instantes depois ouvem-se alguns ruídos indecifráveis, alguns poucos grunhidos e depois silêncio. Em seguida o coelho volta, sozinho, e mais uma vez retoma os trabalhos da sua tese, como se nada tivesse acontecido. Meia hora depois passa um lobo. Ao ver o apetitoso coelhinho tão distraído, agradece mentalmente à cadeia alimentar por estar com o seu jantar garantido. No entanto, o lobo também acha muito curioso um coelho trabalhando naquela concentração toda. O lobo então resolve saber do que se trata aquilo tudo, antes de devorar o coelhinho:

L - Olá, jovem coelhinho. O que o faz trabalhar tão arduamente?

C - Minha tese de doutorado, seu lobo. É uma teoria que venho desenvolvendo há algum tempo e que prova que nós, coelhos, somos os grandes predadores naturais de vários animais carnívoros, inclusive dos lobos.

O lobo não se contém e cai na gargalhada com a petulância do coelho.

L - Apetitoso coelhinho! Isto é um despropósito. Nós, os lobos, é que somos os genuínos predadores naturais dos coelhos. Aliás, chega de conversa...

C - Desculpe-me, mas se você quiser eu posso apresentar a minha prova. Você gostaria de me acompanhar à minha toca?

O lobo não consegue acreditar na sua boa sorte. Ambos desaparecem toca adentro. Alguns instantes depois ouvem-se uivos desesperados, ruídos de mastigação e ... silêncio. Mais uma vez o coelho retorna sozinho, impassível, e volta ao trabalho de redação da sua tese, como se nada tivesse acontecido... Dentro da toca do coelho vê-se uma enorme pilha de ossos ensanguentados e pelancas de diversas ex-raposas e, ao lado desta, outra pilha ainda maior de ossos e restos mortais daquilo que um dia foram lobos. Ao centro das duas pilhas de ossos, um enorme LEÃO, satisfeito, bem alimentado e sonolento, a palitar os dentes.


MORAL DA HISTORIA:

- Não importa quão absurdo é o tema de sua tese.

- Não importa se você não tem o mínimo fundamento científico.

- Não importa se os seus experimentos nunca cheguem a provar sua teoria.

- Não importa nem mesmo se suas idéias vão contra o mais óbvio dos conceitos lógicos...

- o que importa é QUEM É O SEU ORIENTADOR...


Fiquei pensando, nos últimos dias, a esse respeito, no papel que deve ter o orientador.
Será mesmo o do leão da fábula?
Acho que não, embora muitos o sejam.

Outro dia, uma orientanda minha entregou monografia sobre as modificações no CPC e a execução fiscal. Uns capítulos estavam muito bons, mas outros continham muitas omissões. Algumas das mais relevantes alterações no CPC eram simplesmente esquecidas. Quando disse isso para ela, ouvi a seguinte resposta, bastante acanhada:
- É que nesses pontos eu não sei se concordo com você...

Senti um misto de admiração e pena. Admiração, pelo que talvez fosse uma vontade de não me contrariar. E pena, pelo que ela achou que eu faria com ela se discordasse de mim. Mas respondi, com ênfase, que ela não precisava concordar comigo em nada. Meu papel, como orientador, é dizer a ela quais aspectos deve abordar, o que não deve deixar de tratar, quais decisões jurisprudenciais referir, quais autores ler e eventualmente referir... Mas o "rumo" do trabalho é o orientando quem dá. Acho que seria uma violência intelectual se ela tivesse que concordar comigo para continuar sendo minha orientanda. Expliquei tudo isso para ela, que então me enviou nova versão do trabalho, defendendo a ausência de efeito suspensivo automático nos embargos à execução fiscal, a utilização da penhora on-line como medida a ser tomada ordinariamente pelo juiz (apesar do art. 185-A do CTN), entre outras coisas que impactam frontalmente o que defendo. Mas não só elogiei o que estava escrito (apesar de errado, na minha opinião, estava muito bem desenvolvido), como indiquei autores - como o Eduardo F. Bim - que defendem coisa parecida.
Ela ficou impressionada. Disse que uma colega, por muito menos, teve que trocar de orientador. Devia ser um leão, que queria coelhinhas que lhe trouxessem raposas incrédulas como comida...

11 comentários:

Caceres disse...

Hahahaha, o ambiente acadêmico é mesmo uma piada. Aliás, o mundo é uma coisa muito estranha mesmo, a gente vê milhões de absurdos acontecendo todos os dias e todo mundo aceita numa boa. Hay que discordar, pero no mucho.

Pádua Marinho disse...

Acredito prof. Hugo que desde pequenos fomos "educados" (nos colégios) a ter este "temor reverencial" pelos mestres, "tias" etc.
Até nossos pais nos ensinaram a sermos obedientes (em demasia, até) aos nossos mestres.
Penso que só a maturidade adquirida com o exercício da autoconfiança faz vencer este comportamento viciado pela subserviência.

Feitosa Gonçalves disse...

Muito boa a iniciativa, aliás, os posts sobre a academia sempre são muito bons!

Relação de orientação tem dessas coisas mesmo! E tão ruim ou pior do que quando o orientador não admite opiniões contrárias é quando não admite, sequer, a pesquisa em autores que ele não aprova (tu até já falastes disso).

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Caceres,
É verdade. Aliás, o mundo acadêmico não. Todos os mundos. A humanidade, em verdade, tem dessas coisas. Em cada microuniverso social que se entra, se percebem coisas idiossincráticas análogas a essa. É curioso.

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Pádua,
Você tem razão.
O que se tem de nutrir pelo professor, pelo orientador, e, aliás, por qualquer pessoa, desde a faxineira que varre o chão da faculdade, passando pelo porteiro, pelo bedel (os há, podem crer, em algumas particulares) etc., é respeito.
Respeito, que, aliás, alguns alunos não têm por ninguém, nem pelo professor, independentemente da concordância nas idéias.
Mas isso é matéria para outro post. Já falei do assunto, faz tempo, em um no qual comento a realidade de um SPA...
um grande abraço

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Feitosa,
Pois é. É o já mencionado "index".
abraço,

Guilherme Aguiar disse...

Hugo, nós somos da mesma geração e compartilhamos a mesma visão, pelo menos nesse aspecto, de academia, pós, orientação, etc. No entanto, a grande maioria dos professores da nossa geração ainda sao do tipo "leão". E isso vem acontecendo comigo. Venho atravessando essa dificuldade há algum tempo no meu mestrado e é necessário um grande jogo de cintura pra que o resultado final fique satisfatório pras duas partes.
Abs-

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Guilherme,
É verdade.
Mas... Opa! Cuidado para o leão não acessar o blog e ver seu comentário. Ele pode ficar com raiva e deixar a raposa devorar você... :-)
abraços,

Raul Nepomuceno [www.ojardim.net] disse...

Muito legal essa fábula! E é realmente uma pena que ela seja tão verdadeira no que diz respeito ao que pretende simbolizar.

Acho que fomos todos - em nossa geração - criados assim, em meio a leões raivosos e protetores daqueles que se submetem a eles. Mas vejo claramente dias mais serenos chegando.

Lembrei de umas máximas elaboradas por Bertrand Russel em sua autobiografia, algo como os dez mandamentos do pensamento livre.

1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.


Um abraço, Hugo.

Raul.

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

É isso mesmo, Raul.
Excelentes esses conselhos de B. Russel.

Anônimo disse...

Adorei. Estou passando exatamente por isso, tenho minha ideia para dissertação, mas meu orientador insiste em mudar inteiramente meus textos (a ponto de alterar até citações diretas, e olha que ele nunca leu os autores que utilizo, pois somos de áreas diferentes - faço um mestrado multidisciplinar), de colocar, muitas vezes de forma agressiva, o que eu tenho e o que não posso fazer em minha dissertação. Toda vez que tenho uma reunião de orientação, fico muito desmotivada. Estou inclusive pesquisando meus direitos legais, pois não estou tendo nenhuma liberdade intelectual na redação do meu trabalho. O problema é que o cara personaliza meu texto, da forma como ele entende, me obriga a usar determinados autores (entre os quais - e principalmente, sua tese de doutorado), pois sua maior preocupação, é com seu "nome" perante a academia... Resultado: me sinto uma imbecil, incapaz de pensar e escrever. Sei que em um PPG temos que obedecer regras e a sua hierarquia, e minha dúvida é: quais os limites da intromissão de um orientador no trabalho do seu orientando? Quais as possibilidades da liberdade criativa de um orientando? Acho que, para meu orientador, estas possibilidades beiram a nulidade.

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