sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A filosofia e as crianças

A mente infantil me fascina. Para entendê-la melhor, às vezes procuro lembrar de quando eu era criança. Lembro que eu tinha dúvidas que iam desde ao que ocorria com a comida, quando a ingeríamos, até a existência de Deus.
A propósito de Deus, o maior sufoco que passei foi quando tive que fazer primeira comunhão, aos nove anos, já que estudava em um colégio católico.
Uma fila imensa. Todas as crianças da quarta série aguardavam para "se confessar". A professora havia dito que quem mentisse para o padre teria problemas com a hóstia, que não se dissolveria e grudaria na boca para sempre. Talvez o fato de alguns de meus professores de religião tratarem as crianças como idiotas tenha me afastado ainda mais dela.
Bom, mas a minha aflição era: como dizer ao padre que tenho dúvidas sobre a existência de Deus? Serei considerado um herege. Dirão que é um absurdo. Talvez eu seja até expulso do colégio... Essa ansiedade ia fazendo com que eu permitisse a todos os meus coleguinhas que passassem na minha frente na fila... Até que o último se confessou, e saiu. O padre estava em uma cadeira em um canto recuado de um dos corredores do colégio, e não via as crianças que faziam fila para conversar com ele, assim como as crianças da fila não viam o que se passava no local da "confissão".
Quando o último aluno - antes de mim - se confessou e saiu, vacilei por alguns minutos. Entro ou não? O que digo? Pensava que o fato de eu não acreditar me autorizaria a mentir para ele - inventando que acreditava e contando alguns pecados. Afinal, tinha-se aí um paradoxo: se eu não acreditava, para mim nada daquilo fazia sentido, e não acreditar não poderia ser errado. Mas o problema é que eu apenas tinha dúvidas. Como, sinceramente, acho que, no fundo, todos têm. Eu apenas tinha a coragem de admitir.
Bom, mas o que importa é que esses momentos de vacilação certamente fizeram o padre presumir que a fila havia acabado. Finalmente tinha terminado o suplício de ouvir mais de 200 meninos e meninas contarem os seus pecados. Ele já arrumava suas coisas e se levantava da cadeira quando entrei. Olhou para mim incrédulo, como quem pensa "não acredito, ainda tem esse!", e disse: - Já sei, já sei, mentiu para o pai, gritou com a mãe, bateu na irmãzinha, reze cinco pais nossos e cinco ave marias e vá-se embora!
Eu não me lembrava de ter mentido para meu pai, e nem de ter gritado com a minha mãe. Irmãzinha eu nem tinha. Certamente tinha os meus "pecados", que talvez fossem até mais graves que esses, mas foi um alívio. Fui até a capela, fingi (?) que rezava, e voltei para a sala de aula com uma ambígua sensação de alívio.

Narro esse episódio apenas para registrar que, na minha lembrança, usando-me como experimento, as crianças pensam. Podem não ter as respostas certas para as perguntas, mas têm as perguntas, e em filosofia, como em ciência, as perguntas são muito, mais muito mais importantes que as respostas que se lhes dão.
Quando nasceu minha filha, que hoje tem 9 anos, usei-a como objeto de estudo para perceber como se forma a cognição, o pensamento, o raciocínio... Como surgem as palavras, como se aprende a conversar, a usar a linguagem... E, o que mais me surpreendeu: como surgem os questionamentos, e como eles são profundos.
Não por outro motivo, a dedicatória do meu "Processo Tributário", publicado em 2004, é a seguinte:

À Lara, que, não obstante tenha apenas quatro anos, muito já me ensinou, com seus simples mas profundos questionamentos, e com sua lógica infalível.

Depois, na dedicatória do "Por que dogmática jurídica?", escrevi:

À Lara, que, com doçura e inteligência, retira o cunho dogmático de qualquer afirmação que se lhe faça. Embora já caminhe para os seus oito anos, não perdeu, e espero que nunca perca, o hábito de a tudo questionar, com desconcertante singeleza: - Por quê?


Na Turquia, com os olhos brilhando diante da diversidade cultural, a Larinha questionou: - Papai, como saber qual “certo” é o certo?
Pergunta tão singela quanto profunda, que me conduziu a outra viagem... Assim teve início este livro, que a ela dedico com carinho.


Não quero dizer, insisto, que eu fosse, quando criança, e minha filha seja, hoje, mais inteligentes que outras crianças. De forma alguma. Acredito que todas as crianças têm a curiosidade necessária para fazerem boas e profundas perguntas filosóficas, que os adultos, embebidos no senso comum e nas necessidades práticas do cotidiano, deixam de formular. Quando uma criança encontra um adulto que a respeita como ser pensante, o resultado pode ser muito proveitoso.

Outro dia, por exemplo, depois de refletir bastante, um dos meus filhos gêmeos, de 4 anos, perguntou: - Pai, por que existe o mal?

Não há nada mais filosófico do que isso, e perguntas desse tipo, não é difícil constatar, são feitas todos os dias pelas crianças. O difícil é elas se depararem com um adulto que compreenda a profundidade de suas perguntas e tenha paciência de, com elas, pelo menos iniciar a busca por respostas.


Eu já tinha essa concepção faz algum tempo, como as dedicatórias dos meus livros podem indicar. E, para minha alegria, encontrei em uma das minhas últimas visitas à livraria um excelente livro que trata justamente disso. É o "A Filosofia e a Criança", de Gareth B. Matthews (Martins Fontes, 2001). O autor explora com bastante cuidado e seriedade a tendência filosófica que as crianças têm em certa fase da vida. Não deve ser por outra razão, aliás, que se diz dos filósofos que devem ter a curiosidade própria das crianças... Recomendo a leitura.


Bom, e quanto à Lara impressionada com a diversidade cultural, na Turquia, a foto ao lado mostra o momento em que ela teve de cobrir-se para entrar em uma mesquita. Confesso que a curiosidade dela, e as perguntas que me fez, serviram-me de estímulo para ver com outros olhos aquela realidade e aquele país cuja visita também recomendo enfaticamente.

19 comentários:

helana g. disse...

O seu post me lembrou uma citação (talvez a mais bonita) do C.S Lewis, em inglês aqui: http://assimdevera.wordpress.com/2006/11/13/58/

E a minha tradução aqui: http://assimdevera.wordpress.com/2007/12/10/traducao/

:) Não que eu ache que você irá precisar do último link!

Abraços!

helana g. disse...

Ah, esqueci de mencionar que a citação acima se torna mais adequada ainda ao seu post justamente porque C.S. Lewis era um grande estudioso dos fundamentos do Cristianismo.

Tem um livro fantástico dele que recomendo, chamado "Mero Cristianismo", no qual foram transcritos os programas de rádio de que Lewis participou durante a 2a guerra mundial.

O autor falava para uma audiência do Reuno Unido que se via desespereançosa diante dos males da guerra, que desta vez acometiam seus próprios lares.

O texto é muito interessante porque acessível, de linguagem informal, sem eruditismo, mas de discurso rico. Nele, são discutidas questões (aparantemente) simples como o que é o cristianismo, bondade, maldade, etc.

Se não tiver lido, fica a sugestão, se for literatura do seu interesse e dos demais que lêem o blog!

PS: C. S. Lewis não nasceu cristão, converteu-se mais velho.

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Perfeita a citação, Helana. Quanto ao livro, é de meu interesse sim. Vou procurá-lo.

Deubia. disse...

Adorei o post, Hugo.
Confesso que fiquei me projetando e imaginando como será quando o Antônio começar com essa fase dos 'porquês'... rs
Grande abraço!

Fabrício Andrade disse...

Hugo, que post bacana. Gostei muito. Recomendei aos colegas aqui da Receita Estadual. Excelente!

Igor Cabral disse...

Na bíblia, especificamente em Marcos 10,13-16, Jesus disse: “Quem não receber o Reino de Deus como um pequenino, não entrará nele”. O que de certo se extrai disso é a pureza das crianças, a capacidade que elas têm de seguir todos os mandamentos de Deus, mesmo sem efetivamente entendê-los o por quê. E se em algum momento vacilam, logo não sabem o que fazem. O que na verdade Jesus quis dizer foi: “para sermos salvos, precisamos nos tornar crianças”.

As crianças perguntam pois têm curiosidade, sede pelo conhecimento, e mais, o teor de suas perguntas tem o quê da pureza; tudo sem maldade; um mundo sem desigualdades; e o melhor, o regresso ad infinitum, o porquê dos porquês.

Realmente deve ser encantador acompanhar os questionamentos das crianças. Ainda não tive a oportunidade, mas terei em breve, espero fazer o mesmo professor. Excelente texto!

Carlos Pires disse...

É verdade que as crianças fazem todas essas perguntas. E é verdade que as questões são muito importantes em filosofia. Mas depois as crianças - como é natural, tendo em conta a sua idade e desenvolvimento - aceitam qualquer resposta. Ora, em filosofia tão importante como fazer perguntas é ter uma atitude crítica relativamente ao que se diz.

julianacte disse...

Adorei passar por aqui,irei repetir a dose com certeza!!!Estou cursando o 1°semestre de direito e gostaria de sugestões de livros que irão me ajudar nessa minha nova etapa rs um abraço.Meu e-mail:julianacte@yahoo.com.br

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Carlos,
Obrigado por sua participação aqui no blog.
Você tem razão. Mas veja que eu não defendi que as crianças sejam filósofas autênticas, completas e mais preparadas que alguém que tenha cursado uma Faculdade de Filosofia.
Eu não disse que são melhores que os filósofos profissionais.
Apenas destaquei que têm uma curiosidade que os adultos, em regra, não têm.
Quanto a aceitar qualquer resposta, isso não é verdade. Elas são muito críticas quanto às respostas que recebem, sim. Pelo menos as que conheço.
O que acontece é que, como não têm ainda muita bagagem, às vezes não têm elementos para fundamentar suas críticas ou mesmo para pensar nelas. Mas, outras vezes, é exatamente a falta desses elementos que as leva a fazer perguntas que nos mostram que as nossas convicções não são tão fortemente fundamentadas como não raro pensamos.

Anônimo disse...

Prezado Prof.

Sou um visitante diário de seu blog, e nesta condição, ouso tomar seu tempo com um questionamento?

Qual sua opinião acerca da tese manifestada pelo STF nos REsp 612.490/MA e REsp 883.254/MG acerca do ISS, no que tange a atividade-meio e atividade-fim e sua não incidência

Pergunto pois tenho um caso prático de fornecimento de equipamentos de monitoramento de trânsito, onde a empresa presta manutenção e gerenciamento das fotos, não realizando no meu entendimento a atividade fim de monitoramento, mas apenas meio.

E mesmo que existisse uma tênue noção de prestação de serviço, essa estaria englobada na redação do art. 566, I do CC.

Gostaria, caso possível, de sua opinião.

Atenciosamente

Marcelo

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Juliana,
Tudo depende de suas preferências, e da quantidade de leitura prévia que você tem. Isso definirá o que lhe parecerá um bom livro.
Se está no primeiro semestre, que tal o "uma introdução ao estudo do direito", de Hugo de Brito Machado?
Ou, se já tem alguma base: Teoria da Norma Jurídica, de Bobbio, e Introdução ao Pensamento Jurídico, de Engisch.

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Marcelo,
O tema pode dar uma postagem interessante. Quando possível, farei.
att.

Anônimo disse...

Post acima:

Marcelo Selhorst

mardanaz@gmail.com

Anônimo disse...

Obrigado.

Vitor Ramalho disse...

Caro Hugo, sei que esse post foi escrito faz tempo, mas vi essa decisão do STJ hoje e não pude deixar de lembrar. A relação é evidente. Foi reconhecida a personalidade jurídica plena de uma criança de 3 anos, o que ratifica o escrito por você, com o que concordo. Abraços.

http://www.stj.jus.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398&tmp.texto=96144

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Obrigado, Vitor. A decisão é interessante mesmo.

Paizim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alexandra Holanda disse...

Professor, sei que já faz tempo que o senhor escreveu este post, mas somente agora o li e muitos ainda o lerão e, como eu, irão apreciar.

Compartilhei seu link no meu face e apenas passo para, além de parabenizá-lo pelo blog, dividir o comentário que postei em referida rede social:

"O post do professor Hugo fala sobre uma realidade de absoluta obviedade, mas, infelizmente, ignorada por muitos: somos seres pensantes - crianças, jovens, adultos, idosos. A capacidade de questionar não surge com o soprar de muitas velas, o passar de muitas dores e experiências, mas com um simples olhar. Ao que me conste uma das fases que revelam tal realidade de modo mais latente é a infância, onde os incansáveis "por quês" parecem infindáveis!
Adultos?... Bem, estes, talvez indispostos a dispensar um pouco de atenção a tais "por quês" é que costumam, sem pestanejar, responder de pronto: "Porque SIM!" ou "Porque NÃO!"

Questionar, questionar, questionar!!!!"

Um abraço, professor!

Alexandra Holanda

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Obrigado por seu comentário, Alexandra.

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