quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Invictus e Amartya Sen


Assisti ontem à noite ao filme Invictus, com Morgan Freeman e Matt Damon. É muito bem feito e bem dirigido (Clint Eastwood). Há certa semelhança - embora a história seja completamente diferente - com Gran Torino, outro (excelente) filme dirigido por Eastwood: ambos tratam do preconceito e da tolerância. Isso significa que, para quem gosta de temas como multiculturalismo e direitos humanos, a diversão proporcionada pelo filme é ainda maior.
Não pretendo, aqui, comentá-lo, narrar sua história e menos ainda abordar os diversos (infinitos?) aspectos dele que podem ser examinados. Desejo fazer apenas dois registros rápidos.
O primeiro é o de que o cinema, o teatro e a literatura retratam (uma maneira de ver) a realidade. Assim, podem servir de instrumento para a análise de diversos temas, sejam científicos ou filosóficos. Afinal, ciência e filosofia são construídas em torno da realidade - ou da visão que temos dela -, seja sensível (o que é o caso, predominantemente, da ciência), seja suprassensível (precipuamente o que se dá com a filosofia). Um bom filme, ou um bom livro, portanto, podem ser excelente ferramenta para o estudo de temas científicos ou filosóficos. Algum conhecimento prévio, ou a orientação de alguém que o tenha, é importante, mas não essencial.
O segundo registro, diferente mas associado ao primeiro, é o de que percebi grande afinidade entre o que ocorreu no filme e as idéias de Amartya Sen veiculadas no livro "Identity and Violence". Já escrevi no blog, muito rapidamente, sobre esse livro. Foi em um post sobre um amigo meu que (quando era criança!) fantasiou-se de Robin e foi assim para o colégio, por engano, em um dia que NÃO ERA o da festa à fantasia...

Bom, mas a idéia central, muito resumidamente, é a seguinte: há uma tendência natural, na criatura humana, a sentir empatia por pessoas consideradas "do seu grupo", e a sentir aversão àquelas dos "grupos rivais". Basta lembrarmos de certas torcidas de times futebol adversários, de tribos adolescentes, ou de partidários de candidatos a qualquer cargo eletivo (até da OAB), para vermos como isso é verdade.
Ocorre que nenhum ser humano se caracteriza, ou tem a sua individualidade determinada, pela pertença a UM grupo. Todos pertencemos a vários ao mesmo tempo, e se somos "adversários" de alguém em relação a determinado grupo, somos colegas em vários outros. Veja-se, por exemplo, o caso do torcedor do Fortaleza que, encontrando um torcedor do Icasa, sente por ele empatia por pertencerem ambos ao grupo dos torcedores de times da terceirona... hehehe. Ou, brincadeiras a parte (eu nem sou torcedor de time nenhum!), de dois torcedores de times rivais que, não obstante, gostam ambos de pescar, ou têm ambos filhos com deficiência visual. A "raiva" que naturalmente sentiriam um do outro pelo fato de pertencerem a times rivais é neutralizada pelo fato de pertencerem ao mesmo grupo, dos amantes da pescaria, ou dos que têm filhos com um mesmo problema de saúde.

Sen explora essa questão para destacar que não se deve super-estimular em alguém o sentimento de pertença a um grupo isolado (esquecendo-se dos demais), pois isso leva de forma irremediável à violência. Dizer que existem - e essa é a tônica do livro - "ocidentais x orientais", que são radical, intrinseca e essencialmente diferentes, coloca uns e outros em lados opostos de uma batalha, sem possibilidade de conciliação. Algo como "humanos" contra "não-humanos". Ou "eles" contra "nós".
Em verdade, todos pertencemos ao grupo dos seres vivos (pelos quais deveríamos ter alguma empatia), em seguida dos animais, dos mamíferos, depois dos seres humanos, para só então, após tantos grupos em comum, começarem as separações, que mesmo assim não são absolutas porque, como já apontado, ninguém faz parte, como ser humano, apenas de um grupo isolado. O sujeito pode ser muçulmano e o outro católico, mas ambos torcedores do mesmo time, praticantes do mesmo esporte, ou amantes da mesma música. Basta imaginar um cara - para voltar de certo modo ao Robin - que odiava outro, um verdadeiro mala, até o dia que descobriu serem ambos vidrados em Dire Straits: - Opa! Ele até que é gente boa...
Fazia algum tempo que eu havia lido Identity and Violence. Foi entre dezembro de 2008 e março de 2009, mais ou menos. Mesmo assim, ao assistir a Invictus, parecia que eu estava (re)lendo suas páginas e presenciando a demonstração empírica (presumindo que na realidade as coisas se deram tal como representadas no filme) das idéias de Sen.
Mandela foi inteligente ao não ser tão intolerante quanto haviam sido com ele. Afinal, todos ali eram sul-africanos e estavam envolvidos em projeto comum. Os resultados positivos foram percebidos logo em seguida, mas é preciso admitir que, dadas as fraquezas humanas, é difícil alguém fazer o que, no filme, ele fez. Mas a questão da identidade e da violência mostra-se nítida quando a seleção de rúgbi começa a progredir na copa do mundo. Há uma cena bem ilustrativa disso, em que um garotinho negro fica mexendo no lixo próximo ao carro de uns policiais brancos. Ele apenas finge revirar o lixo, sem pressa e sem nunca terminar de fazê-lo. O que deseja, na verdade, é um pretexto para ficar próximo ao carro, onde os policiais ouvem, pelo rádio, a narração do jogo. Ele quer ouvir também.
No início, os policiais o repreendem duramente por estar a mexer no lixo. Ele, mesmo assim, continua revirando, pegando latas e deixando-as cair novamente... Vai ficando, se aproxima, senta na calçada... Pouco depois, estão se abraçando a cada ponto marcado pelo time do seu país.
Pode haver alguma poesia e romantismo. As coisas, na realidade, até podem não ter ocorrido tal como retratadas. A África do Sul certamente ainda tem seus problemas. Mas, apesar de tudo, o filme dá (ou reproduz) belíssima lição de tolerância e de paz.

6 comentários:

julianacte disse...

Olá,boa noite adoro seu espaço, sempre que posso passo por aqui rs,hj apenas resolvi comentar pois estou com uma dúvida em um trabalho que preciso concluir, é sobre o positivismo no Brasil onde a prof. quer que eu aponte os aspectos positivos e negativos do positivismo no Brasil,se puder me ajudar ficarei grata!Uma boa noite.
julianacte@yahoo.com.br(estou no 1°semestre de direito).

Augusto disse...

Olá Professor, tudo bem? De uns dias pra cá, tenho lido seus artigos e sempre achando muito interessante...Em relação ao comentario sobre o filme "INVICTUS", percebi que o senhor é um torcedor alvinegro... Brincadeira professor... Professor Hugo, na verdade gostaria de uma opinião sua, pois estou na maior dúvida na escolha do tema de minha monografia. Gosto das areas Penal e Administrativa, O Sr. poderia sugerir algum tema nesse sentido?
Grato pela atenção.

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Augusto,
Não, não sou alvinegro. Apenas quis fazer uma brincadeira.
Procure você mesmo o tema. Descubra um que lhe pareça interessante. Se você acha as duas áreas interessantes, procure algo situado entre ambas.

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Se você já tiver um tema em mente, e quiser minha opinião sobre ele, não hesite!

Augusto disse...

Olá Professor Hugo, tudo bem? Sei que o Sr. não é alvinegro... foi apenas para descontrair... Professor obrigado pela atenção em responder. Em relação ao tema da monografia como lhe falei estou na dúvida, na área administrativa penso em escrever sobre o processo administrativo disciplinar em relação aos servidores do estado do ceará.
Na área penal algo sobre o estatuto do desarmamento. O que o sr. acha desses temas?
Augusto

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Os temas são bons. Pense, contudo, dentro deles, em uma pergunta central, em um problema a ser resolvido ou em um questionamento a ser enfrentado.

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