terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Por gentileza, Fortaleza

Recebi por e-mail, da Professora Deubia, texto (abaixo reproduzido) que veicula idéias a respeito das quais venho meditando há algum tempo. Tenho até post em preparação sobre elas, que não tem, contudo, o estilo do que se segue. Acho que, conquanto ela se reporte à Fortaleza, aplica-se às principais cidades do Brasil.

Por gentileza, Fortaleza

Na praia, quero ouvir o barulho do mar. No teatro, só o espetáculo. No cinema, o filme. Na sala de aula, a aula. Em casa, sons que não incomodem a vizinhança. Na praça, o buchicho das conversas. Nas igrejas, rezar baixinho: os deuses não são surdos. Deixar profissionais e pacientes atravessarem uma dura noite em hospital sem som de carro. No Passeio Público e no jardim do TJA, quero ouvir passarinhos. Vivo em Fortaleza. Quero viver em outra cidade: Fortaleza sem som automotivo. Quero mais: calçadas livres, ruas limpas, iluminadas, transporte público decente. Um dia tocado por "Bom dia" ao desconhecido que passa, movido a "Por gentileza", "Com licença", "Por favor" e "Muito agradecida". Ainda que não saibamos, estamos exauridos pela grosseria que não cessa de prosperar na cidade. Do ônibus ou da Hilux, por gentileza, não jogue lixo na rua. Não encontrar lixeira não é desculpa: leve um saquinho na bolsa. Respeite o ciclista: para 7da cidade, a bicicleta é o único meio de transporte. A vaga para deficiente é para portadores de deficiência... A fila é para todos, todos temos pressa ­ ainda que não saibamos como inventamos uma vida assim - e não precisamos de lei para dar passagem aos velhos, às pessoas com crianças, às mulheres grávidas: é só se colocar no lugar do outro. Miúda, eu já sabia que dar o lugar aos mais velhos era uma regra que valia sempre no ônibus, na fila... Por gentileza, não buzine: se estou parada é porque engarrafamos a vida. É cada vez mais difícil o ir-e-vir mais banal. Vai para a balada, ao Centro ou ao estádio? Com tanta grana, por que não pega um táxi? Sobretudo, ao deitar e ao acordar, lembre-se: não existe só você no mundo. Não grite; não chame o garçom ou a vendedora com um "Ei!"; saiba que muitas vezes seu celular pode ficar desligado e o mundo continuará girando. Quero viver em Fortaleza assim: nos 365 dias do ano, com a civilidade dos dias extraordinários. Ainda ressoa o relato da amiga moradora da Santos Dumont que desceu a João Cordeiro a pé para o Réveillon na praia, à vontade na rua, sem pânico em relação ao outro: sim, porque o medo incorporado é acionado a cada encontro com quem quer que seja. É um alento saber do casal amigo que voltou do Réveillon fazendo o caminho contrário, pegou um ônibus na mesma Santos Dumont às duas da manhã e foi para casa, prática comum para quem mora em uma cidade que sabe viver. Quero sim a civilidade da Domingos Olímpio no Carnaval. Senhoras levando cadeiras de casa para ver o desfile, crianças brincando, muitos mundos partilhando um mesmo espaço. Como no Pré-Carnaval no Jardim das Oliveiras, reunindo o time de futebol e o bloco do bairro com a Escola de Samba Império Ideal: não lhe conheço, não sei quem você é, talvez não nos encontremos nunca mais, mas vivemos juntos e precisamos, você e eu, cuidar de nós mesmos e cuidar da cidade. Cuidar da vida (na cidade) é uma tarefa cotidiana e coletiva. Agora está na nossa mão, por exemplo, desligar a violência do som automotivo. O paredão de som é pago. O silêncio é gratuito. Tem gente fazendo negócio com o nosso silêncio. E criando um lastro de brutalidade. Nunca quis isso. Agora, por gentileza, não fico calada. Viver com o outro é nosso aprendizado diário. Eu quero aprender!

Izabel Gurgel dirige o Theatro José de Alencar com Silêda Franklin

4 comentários:

Anônimo disse...

Fazer a nossa parte, dentro de nossas competências, é o básico; gera inclusive afetação, ao menos indireta, na questão da segurança pública. Quanto aos meios de transporte e sua utilização por donos de veículos, em nossa realidade, parece utopia. Ou pergunte à maioria dos que, com poder aquisitivo, frequentam esse espaço, se deixariam, dentro de nossa cultura, de andar de hilux pra catar um onibus ou metro, como fazem na europa?? Acho bastante inatingível essa quebra de paradigma a curto e médio prazo. Talvez nem nossos filhos. Com 18, com certeza, os pais vão dar um carro. Isso é fato. A verdade é que a gente se preocupa com nosso umbigo e não com a realidade alheia. Quão grande o número de escritórios e órgãos públicos, espaços de pessoas supostamente civilizadas, onde não se ouve nem um bom dia para os "dos serviços gerais". Agora chega um medalhão", o tratamento é outro, mesmo quando se encontram em posições antagônicas, em lados opostos...mas o cara é Dr., é isso, é aquilo, estudou ou tem muito dinheiro para merecer tratamento diferenciado. O lascado, que inversamente é quem necessita de tratamento mais afável, dadas todas as diferenças, não o recebe. Ta difícil de evoluirmos. AInda estamos na época da tentativa de conscientização, como muito bem faz o texto aqui publicado. Não fiquemos no discurso e na propagação teórica, vamos em frente.

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Tem razão, vamos em frente.
Pequenos atos fazem a diferença.
O bom-dia aos dos serviços gerais é o mais básico. Impositivo. Noto o quanto alguns funcionários dos locais onde trabalho gostam de mim só por isso, que não me custa nada.
Quanto ao carro, conquanto em parte a culpa seja da qualidade no nosso serviço público de transporte, dá para ir aos poucos. Não dá para abandoná-lo inteiramente, mas uma vez ou outra, quem sabe?

Suzane Farias disse...

Adorei o texto Segundo...peco licença para posta-lo no meu blog tambem...gentileza é bom e faz bem!!!

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Suzane, Fique à vontade!

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