sábado, 22 de dezembro de 2007

Notas sobre a biografia de Einstein

Concluí hoje a leitura de "Einstein. Sua vida, seu universo".
O livro, como já havia mencionado em postagem anterior, é muito bom. Mais pelo biografado do que pelo autor da biografia, evidentemente, mas ainda assim muito bom.
Costumo - aprendi com o prof. Arnaldo Vasconcelos - fazer anotações nas folhas em branco que constam no final dos livros. Sempre que os leio, menciono, nas tais últimas folhas em branco, as páginas nas quais vi informações que me chamaram a atenção, e alguma referência sobre o assunto. Crio, assim, uma espécie de índice pessoal, que facilita sobremaneira a localização dos pontos do livro que me pareceram mais relevantes, ou nos quais constam informações que me pareceram dignas de nota. Depois passo tudo para o computador, o que facilita a localização dessas informações. Trata-se de algo muito bom para localizar dados constantes de livros lidos há algum tempo, agilizando a feitura de citações, referências etc.
Experimentarei postar, aqui, algumas dessas notas, em relação à biografia de que se cuida.
Como disse, o livro é "Einstein. Sua vida, seu universo", de Walter Isaacson. O autor foi presidente da CNN, sendo este o aspecto mais relevante destacado em sua síntese curricular constante da orelha do livro. A editora é a Companhia das Letras, a edição é a primeira, de 2007, e a tradução ficou a cargo de Celso Nogueira, Denise Pessoa, Fernanda Ravagnani e Isa Mara Lando.
Há fotos muito interessantes, que tornam ainda mais prazerosa a leitura.
Quanto às minhas observações sobre a leitura, estão abaixo, com remissão às páginas correspondentes:
p. 26 - Sobre o que seria importante ensinar nas escolas, às crianças, teria respondido: "No ensino de história deve haver um debate profundo sobre as personalidades qie influenciaram a humanidade por meio de sua independência de caráter e julgamento."
Carl Sagan parece ter seguido essa idéia, pois os episódios da série "Cosmos", exibidos na televisão na década de 1980 e relançados recentemente, com atualizações, em DVD, têm diversas referências à História e a personalidades que contribuíram para a ciência opondo-se ao dogmatismo.
Em seguida, na mesma página, Einstein insurge-se contra o método de ensino vigente em sua época de estudante, o qual, lamentavelmente, não se modificou tanto assim em um século. Para ele, o professor deve ensinar o aluno a pensar, e não a decorar acriticamente fatos, informações e datas.
O pior é que, hoje, muitos estudantes NÃO QUEREM pensar. Dizem dar muito trabalho. Preferem ouvir tudo "mastigado" pelo professor, para só decorar. Chegam a se irritar quando estimulados a pensar um pouco...

Na p. 34, faz-se referência à importância - que mencionei em postagem anterior - de nunca se sair da idade dos "por ques". "'Pessoas como você e eu nunca se tornam adultas', escreveu a um amigo, mais tarde. 'Nunca cessamos de nos comportar como crianças curiosas perante o grande mistério em que nascemos'"

p. 36 - Desmente-se a afirmação popular - fundada em um "carteado" que se consolidou pela repetição irresponsável e acrítica - de que Einstein teria reprovado em matemática, quando criança.

p. 39 - Aos treze anos, apreciava, e lia intensamente, Kant, que depois o levou a apreciar David Hume e Ernst Mach.

p. 49 - Embora Einstein não tenha "reprovado em matemática", como vulgarmente se diz, ele não foi o aluno mais brilhante da classe. Em uma escala de 0 a 6, tirou 5 ou 6 em ciências e matemática, e 3 em francês. O aluno mais brilhante de sua classe, contudo, não é conhecido, tendo se perdido na história, nas palavras do autor da biografia...

p.53 - Einstein reclamava, em relação aos estudos da física em Zurique, que se estudava muito o passado da física, mas não o presente e o futuro. É incrível como isso ocorre também, com grande freqüencia, com alguns cursos e professores de Direito...

p. 55 - Aqui, o relato de um fato pitoresco, que eu achava que acontecia apenas nas salas de aula que cheguei a frequentar: alunos que faltavam muito as aulas "estudavam pelo caderno" daqueles mais bitolados que copiavam tudo o que o professor dizia em sala. Alguns cadernos chegavam a ser disputados e copiados... Isso na turma de Einstein, que inclusive se valia desse expediente.
Mas, aqui, uma observação é importante, para que esse fato isolado não seja mal interpretado. Isso ocorria porque Einstein achava as aulas enfadonhas e desinteressantes, passando o tempo a estudar, sozinho e em casa, autores contemporâneos e temas muito mais difíceis. Seria como um estudante de Direito "cabular" uma aula sobre "os métodos clássicos de interpretação" para ficar em casa estudando Viewheg, Gadamer e Alexy.

p. 56 - Einstein não "descobriu" a relatividade sozinho. Traços dela poderiam ser encontrados, por exemplo, em Henri Poincaré. A juventude de Einstein apenas o fez ousar e romper com os paradigmas então dominantes, indo além e tirando conclusões que os seus contemporâneos mais maduros não ousaram tirar.

p. 97 - Há um recado interessante, aqui. Escrever demais - ter produção muito vasta - gera o risco da superficialidade...

p. 99 - Ele lia Antígona, que o fascinava pelo confronto à autoridade, e Cervantes. Há, contudo, uma duvidosa referência a Dom Quixote como sendo um "épico". Não sei se foi "espontaneísmo" superficial do autor, que parece ser mais jornalista que propriamente erudito, ou se foi um lapso de tradução.

p. 101 - Mostra o acerto de Popper - desconfio que a epistemologia contemporânea baseia-se toda ela na história recente da ciência, sobretudo de Einstein e da física -de que as afirmações científicas são sempre provisórias. Até o enunciado de que a soma dos ângulos de um triângulo é sempre 180 graus pode ser colocada em dúvida: em um universo curvo...

p. 117 - Muitos cientistas do início do século XX relutaram em aceitar a relatividade, presos na física Newtoniana. Algumas décadas depois, Einstein faria exatamente o mesmo, em relação à física quântica... É exatamente do que Thomas Kuhn trata em seu "A estrutura das revoluções científicas".

p. 130 - Importante defesa da intuição como fonte de conhecimento racional.

p. 191 - Depoimento de Zangger, amigo de Einstein, sobre ele como professor:

"Ele não é um bom professor para cavalheiros mentalmente indolentes que desejam apenas encher o caderno e depois decorar tudo para o exame; ele não tem fala macia, mas qualquer um que pretenda aprender honestamente a desenvolver suas idéias na física, em profundidade, e a examinar todas as premissas cuidadosamente, vendo as armadilhas e problemas durante sua reflexão, considerará Einstein um professor de primeira classe, pois tudo isso está presente em suas aulas, que estimulam a classe a pensar também".


p. 255 e 256 - No campo político, Einstein revelava-se social-democrata. Contrário aos excessos do capitalismo, mas contrário à eliminação do indivíduo e de suas liberdades verificada no comunismo. Em passagem verificável também em outros autores - como Pontes de Miranda -, diz que "todos os verdadeiros democratas devem estar atentos para que a velha tirania da Direita não seja substituída pela nova tirania da Esquerda."
Quanto à "ditadura provisória", conceito tão contraditório quando "quadrado esférico", pois, depois de implantado o poder absoluto, não há como obrigá-lo a ser provisório, dizia ele que as pessoas não se devem deixar seduzir "pela sensação de que uma ditadura do proletariado seja temporariamente necessária para enfiar o conceito de liberdade na cabeça de nossos conterrâneos."

p. 271 - Foi na cidade de Sobral, no Ceará, que se fez a observação do eclipse do sol, em função da qual se comprovou - pelo desvio na luz de uma estrela provocado pela força gravitacional do sol - o acerto da teoria da relatividade.
Dizem ter sido por isso que Einstein respondeu, a uma objeção de Pontes de Miranda, que a confirmação de sua teoria lhe teria sido dada pelo Brasil. Essa história não consta da biografia, e nem tenho fontes seguras para dizer que tenha mesmo ocorrido, mas dizem que Pontes teria ficado orgulhoso, pensando ser aquilo um elogio de Einstein para ele, quando na verdade referia-se ao experimento em Sobral.

p. 296 - Globalização com respeito às diferenças, tema tão atual em matéria de Direitos Humanos, era uma preocupação para ele, que, no entanto, dizia: "É possível ser internacionalista sem ficar indiferente aos membros de sua própria tribo."

p. 389 - sobre o comunismo: "No topo, parece haver uma luta pessoal em que os meios mais vis são usados por indivíduos sedentos por poder que agem com razões puramente egoístas. Embaixo, parece haver a completa supressão do indivíduo e da liberdade de expressão. É questionar se vale a pena viver em tais condições."

p. 391 - Conquanto defensor dos judeus, não deixou de ser solidário aos árabes que com eles começavam a ter problemas, antes mesmo da criação do Estado de Israel. "Se formos incapazes de chegar a pactos honestos e a uma cooperação honesta com os árabes, então não aprendemos absolutamente nada em nossos 2 mil anos de sofrimento."

p. 398 - Ele era religioso à sua maneira. Trata-se, certamente, do "Deus dos filósofos", e não de uma entidade personificada, consciente e responsável por prêmios e castigos aos homens.

p. 403 - Interessantes reflexões sobre o livre-arbítrio e o determinismo. Einstein era determinista ferrenho, mas em seus atos políticos parecia acreditar no contrário. É um tema controverso, e, de qualquer forma, o princípio da incerteza, contra o qual ele tanto se opunha, parece ser uma demonstração de que nem toda causa é necessariamente determinada apenas por tais ou quais efeitos... Talvez futuramente poste algo sobre esse tema filosófico, que me interessa bastante.

p. 538 - Excelente resposta de Bertrand Russell a uma crítica feita a Einstein, por ter sugerido aos perseguidos pelo MacCarthysmo que não respondessem aos interrogatórios e invocassem a proteção da primeira emenda. Sendo ele acusado de haver preconizado o desrespeito ao ordenamento e a desobediência civil - o que não era verdade - Russell o defendeu dizendo que, se a lei devesse sempre e incondicionalmente ser cumprida, os americanos estariam ainda hoje colonizados pela Inglaterra...

p. 547 - As observações de Einstein sobre o "MacCarthysmo" são muito pertinentes, e continuam atuais sobretudo em face do que se fez nos EUA depois de 11/9/2001. Para ele, "tudo aqui - até mesmo a loucura - é produzido em massa".
Einstein foi ferrenho opositor do MacCarthysmo, incentivando colegas a nada dizer nos "interrogatórios", invocando a Primeira -e não a Quinta - Emenda à Constituição americana.

O livro, evidentemente, tem muito mais elementos possivelmente mais interessantes do que estes. Foram, apenas, os que me chamaram mais a atenção, dentro de um universo de informações sobre a vida, a obra e o contexto histórico de alguém tão importante para a história da ciência e da humanidade. Há muitos outros aspectos, que não estão em uma página específica mas no contexto global da obra, que merecem referência. A resistência de Einstein às novas teorias, a imbecilidade de muitas perguntas que jornalistas e leigos lhe dirigiam em entrevistas dirigidas ao grande público, a paciência e o bom humor como ele as respondia, seus dilemas e problemas no âmbito pessoal (que mostram seu lado humano, igual ao de qualquer um de nós), etc. etc.

Certa vez, ouvi de um professor a recomendação de ler biografias. Sobretudo de grandes homens. Aprende-se muito com elas. É verdade. Talvez a próxima seja a de Dom Pedro Segundo. Pretendo comparar uma recente, lançada pela Companhia das Letras, com outra antiga, que ganhei de meu sogro, em quatro volumes, escrita por Pedro Calmon. Quem sabe posto alguma coisa a respeito.

3 comentários:

George Marmelstein disse...

Hugo,
também tenho a mesma "mania". A diferença é que meus comentários são tão desorganizados e minha letra tão feia que, às vezes, nem eu entendo o que eu quero dizer.
Grande abraço e continue postando com regularidade, inclusive para comentar os livros que você está lendo.
George Marmelstein

José Joaquín Lunazzi disse...

Tecnicamente me deu a pauta de que devo compreender porque Einstein indicava que os fótons existiam no volume, nao somente na emissao e deteçao. Suponho que porque ele aplicou uma estatística de elementos independentes, como partículas, e deu o resultado esperado. Também, no livro nao se entende como é que a ligação gravitatória tem como limite a velocidade da luz.
Fora isso, gostei muito do livro, é incrível como idéias filosóficas dão resultados em ciência. Idéias religiosas não: "Deus nao joga aos dados", disse Eiinstein, e outro, acho que Bohr, replicou "Chega de dizer o que Deus faz".

dani disse...

Gostei bastante do seu comentario, ainda mais sobre Einstein um grande homem da humanidade..Gostei da sua dica de anotações nos livros..pretendo começar a usá-la também.
Danimar Ribeiro

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