quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Só uma furadinha de fila...

Estará certo Schopenhauer, quando diz que...

"O que é admirável é como a individualidade de toda pessoa (i.e., este caráter determinado, com este intelecto determinado), qual tintura permanente, determina todas as ações e pensamentos da mesma, até a mais insignificante; em conseqüência do que todo curso da vida, i.e., a história exterior e interior, de um se configura tão fundamentalmente diferente do outro. Assim como um botânico conhece a planta inteira por uma folha, e Cuvier construiu o animal inteiro por um osso, é possível a partir de uma ação característica de uma pessoa atingir um conhecimento correto de seu  caráter, portanto construí-lo em certa medida a partir daí, inclusive quanto esta ação se refere a algo insignificante ..."?

Sempre achei que, se o sujeito fura uma fila no trânsito, ou no cinema, ou compra um trabalho escolar ou acadêmico, pode sem maiores escrúpulos furar uma licitação, ou comprar o seu resultado. Mas não será isso excesso de rigor? Terá o sujeito que ser certinho em tudo, sob pena de, diante da mais mínima falha, ser considerado capaz da maior delas?


6 comentários:

Jader Willian Leite disse...

Entendo ser, cada caso um caso, não é possível firmar uma opinião concreta que irá nortear tantas outras atitudes.
A pessoa é movida de emoções, acerca disto diversos exemplos concretos e não hipotéticos de pessoas que cometeram atitudes não cabíveis socialmente, destas, até cometimento de infrações, devido ao momento. Quem já não fez algo do qual se arrepende? Voltaria a fazê-lo?
Temos que analisar objetivamente, não se trata de personalidade e, sim, elementares da atitude.

Jader
http://academicojus.blogspot.com/

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Você levanta uma questão interessante, Jader, que é a da motivação. Alguém que, como o personagem do Samuel Jackson em um filme do qual não lembro o nome, mata os estupradores da própria filha, por exemplo, pode até estar fazendo algo errado, mas age movido por violenta emoção, e não se pode dizer que, por isso, poderia sair na rua matando qualquer um.
Mas e o que dizer de quem tem o HÁBITO de praticar pequenas desonestidades? Não seria o indicador de que é capaz de outras maiores?

Daniel Miranda disse...

Colocando-se a questão sob esses termos, do sujeito que tem o hábito de praticar pequenas irregularidades, entendo que a reiteração da prática acaba por enfraquecer o senso crítico do agente, de sorte que ele passa a compreender como normal a conduta escolhida, ainda que fraudulenta.
Seria algo ascendente, em que as fraudes vão se agravando e o agente não percebe o agravamento sucessivo, pois, para ele, é natural agir daquela forma.
Afasto, porém, a hipótese de alguém passar de uma infração singela (se é que podemos graduar as infrações) para uma mais grave de forma direta, pois, nesse caso, acredito que a percepção, ou pelo menos o aceno de que a conduta não é devida, é mais acentuada.

Anônimo disse...

Hugo, acredito que a mera conduta de alguém pouco diz sobre o seu caráter, quando não podemos perquirir o aspecto volitivo. Uma pessoa pode cometer pequenos furtos porque é cleptomaníaca, porque não consegue emprego e possui filhos passando fome, ou apenas gosta da comodidade de conseguir bens sem o esforço do trabalho. Pequenos atos podem até servir como indícios, mas sem a ciência da motivação não passam disso. A questão está presente na discussão das teorias da ação. Na teoria finalista a culpa e o dolo fazem parte da conduta. Portanto, quando Schopenhauer diz que determinada ação pode externar o caráter de alguém, concordo na medida em que o certo e o errado estajam inserido na conduta, de modo a propiciar uma espécie de excludente de culpabilidade moral. Na prática, confesso que nem sempre procuro entender as razões do suposto mal educado e fico muito p. da vida com pequenos detalhes como furar fila. Frase de Einstein que faz alusão a realidade poderia ser utilizada para as aparências. "Reality is merely an illusion, albeit a very persistent one".
Rodrigo Sales (Fortunato)

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Você está certo, Rodrigo. A questão é a motivação.
Quem rouba para dar de comer aos filhos não necessariamente acha que o ato de roubar é correto. Talvez ache menos errado do que deixar a prole perecer de inanição. Acho que a maioria das pessoas faria o mesmo, em situação análoga.
Mas, quando o texto que citei no post fala de conduta desonesta, acho que se refere àquela que em tudo, vale dizer, tanto na exteriorização como na motivação, é reprovável.
Quem acha que comprar uma monografia não tem nada demais, que é coisa de gente esperta que não tem tempo para ficar escrevendo besteiras, por exemplo, achará errado também dar uma fraudadinha em uma licitação?

Hugo de Brito Machado Segundo disse...

Isso ocorre mesmo, Daniel. Há estudos a respeito. Quando a pessoa comete uma infração, sente como que tendo rompido um limite. Uma barreira ética, ou moral, que ela impunha a si mesma. Fica mais fácil, depois, praticar as mesmas infrações, já que o limite já foi ultrapassado. E fica mais fácil, também, subir um degrau a mais na escala das ilicitudes...

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